Quando achamos o nosso último reduto.

 




Hoje, ao fim do dia, fugi para a minha casa da Nazaré.

Simplesmente porque na Vieira nem tinha onde ficar. Mesmo no primeiro andar do meu prédio destelhado, onde chove, como em tantas e tantas casas da minha terra.

Passei uma semana ou duas em casa da Helena em Leiria.

Hoje, tive de fugir. 

De toda a gente.

Por vezes tenho esta estranha necessidade. De voltar a estar sozinho. Comigo e com as minhas emoções. Recolher-me a mim próprio, com as minhas desilusões e amarguras.

A minha terra de sempre tem pouco ou nada para me oferecer.

O Mar da minha mãe, passou a ser o meu. 50 anos de luta por um simples apartamento à sua frente foi-me bastando. E faz-me feliz.

Quando saio à rua não conheço rigorosamente ninguém. E isso é tudo. Significa tudo.

Irei arrendar o apartamento da Vieira para onde me tinha mudado recentemente, simplesmente porque não tenho qualquer vontade em permanecer nessa terra.

Os meus interesses materiais, que são alguns, já não são meus. Pertencem aos meus filhos. E os 4 ou cinco Amigos que lá deixei, sempre os posso abraçar em qualquer circunstância. Não me obrigam a viver e adormecer por lá.

Não tenho, porque não tenho quaisquer veleidades políticas, sociais, associativas ou de grupo. Tudo isso para mim tinha terminado. Há muito tempo.

Não faço falta a ninguém. É simples. E totalmente verdadeiro.

Quando perdemos a casa da nossa vida, perdemos tudo o que nos prendia a uma terra.

Tirando meia dúzia de Amigos, resta-me apenas o cemitério que guarda os ossos dos meus mais queridos E Nada mais.

Triste forma de sair.

Tenho, outros ossos na Pederneira. Do meu avô Henrique e da minha avó Maria, quando quiser abrir os braços a Deus e olhar para o mar.

Por aqui ficarei sempre, à espera de deixar tudo pronto para os meus filhos e um dia, adormecer para sempre na minha varanda, num pôr do sol eterno.

É só isso que desejo.

Do fundo do coração.

A vida é dura. Muito dura, mas envolta numa beleza indescritível. E não há varanda mais bonita que a minha.

Com 50 anos de atraso.

Procurem ser felizes com o que têm.

Aproveitem o que Deus vos vai dando.

E nunca prejudiquem ninguém.

Esse sim é o grande propósito da vida.

Não fazer mal a ninguém.

Propositadamente.


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