O António e as coisas que importam.

 




A Minha Tribo.

Hoje tive de regressar à Vieira. Fui com o meu filho António, uma das pessoas mais sensatas que conheço. Fomos tratar dos nossos enormes problemas por lá.

Um dia de sol imenso. Até porque o Sol volta sempre, embora alguns se esqueçam sempre disso.

Regressávamos depois a Leiria, os dois em silêncio, a ouvir Jazz, na smoth, a minha estação de rádio preferida. Calmamente pela estrada de Monte Real. Às tantas disse ao puto: “sabes, estou bastante preocupado comigo”.

“Porquê Ruizinho?”

“Porque só tenho 57 anos e atingi o patamar que o teu avô alcançou com mais vinte anos dos que conto agora. E isso assusta-me, porque não é normal. Tenho problemas de saúde e simplesmente, não tenho nenhuma vontade de morrer e estou a achar sinceramente que fiquei muito velho de repente. Foram 4 semanas desgastantes até ao meu limite”.

O puto não estava a entender rigorosamente nada da minha conversa.

Tive de lhe explicar calmamente que embora eu e o meu pai fossemos pessoas com feitios totalmente diferentes, deixamos de acreditar na esmagadora maioria das pessoas e regressamos à nossa tribo mais pequena, porque a única verdadeira, porque de incondicionais se trataram sempre todos e nós deles. Família muito, muito próxima e alguns (mesmo assim alguns), grandes e eternos Amigos.

Eu, com ‘apenas’ 57, cheguei JÁ a essa mesma e 'notável' conclusão.

Tenho vivido 4 semanas, preocupadíssimo, não comigo, mas com os outros, numa luta constante e com toda gente e entidades diversas (GNR, Câmara Municipal, Proteção Civil) sem horas de sono, numa ansiedade sem tamanho. Logo eu, que necessito de dormir pelo menos 5/6 horas. E nem isso tenho tido.

***

Boa música, bela conversa naquele regresso a Leiria.

Admirado fiquei com um puto que amo profundamente e que no fim me diz: “sai da Vieira, sai de tudo o que te faz mal e aninha-te apenas naqueles que te amam e, mesmo assim são alguns Ainda te resta muita gente.

Nem tens razão de queixa, porque és um homem que tem tudo para ser profundamente feliz. 

Sempre te refizeste a ti próprio sozinho. Já atravessaste problemas bem maiores, em todos os aspetos.

E vamos, tu, eu, o João e o Manel conseguir refazer um sonho de uma vida inteira. Aquela grande Casa irá renascer das cinzas em que este temporal a transformou. Quem ficou de fora de ti, ficou fora de ti. Arrenda uma casita em Leiria e vê se és capaz de ser feliz.

Que nunca permitas que nada disto te derrube”.

Tem razão o Tóino.

Mais uma vez.

Fica, no entanto, uma pergunta: porque é que os nossos sonhos nos trazem sempre tantas vicissitudes, separações amarguradas e perfeitamente evitáveis?

Depois resolveu concluir que a minha casa da Nazaré demorou, nas minhas mãos, 30 anos a ficar pronta.

Mas ficou!

Esta, a da Vieira, que morreu, por agora, e é um espaço sagrado para todos os meus Teodósiosinhos demorará o que demorar, mas ficará refeita, moderna e reconstruída, apesar de todos os pesares e canalhices feitas agora, no passado e outras que surgirão ainda. 

E serão tantas!

Nem que seja a última coisa que faça na vida.

A minha Casa renascerá, comigo ainda vivo para poder olhar para ela, nem que seja por uma única vez.

Disso podem estar certos, meus amorzinhos.

Muitos obstáculos teremos todos de ultrapassar, canalhices várias, mentiras e truques de magia jurídica, mas entraremos todos naquela porta do nº 22 da antiga 'Praça da República', sem ter de pagar um cêntimo a nenhum canalha de breve circunstância.

Seja lá quando for, entraremos os 4.

Juntos.

E com aqueles com quem sempre pudemos contar.

Juro!

Pelas Almas do vosso avô, bisavô e trisavô.

Não haverá canalhice, nem truques, nem qualquer mentira ou omissão que nos façam perder o foco no nosso único Templo de mais de 126 anos.

Isso nunca.

Ninguém tem força para isso. Porque o temporal destruí-nos o nosso berço e a nossa mortalha. E com estas coisas ninguém se deve meter.

Nem os maiores canalhas da vida!

Ou, se se meterem, como irá ser o caso, sairão esfolados vivos, pela força da lei, da razão e da decência. 

Mas esfolados sairão!

Seja o Município (como parece ser o caso), sejam os inefáveis Rodrigues, evidentemente, sempre ávidos de um cêntimo que possam ganhar à custa dos outros e de mentiras várias.  

Nesse dia, breve ou longínquo, tiraremos uma foto os quatro a rir perdidamente, porque tudo o que é efetivamente importante, seja para quem for, dá trabalho, imenso desgaste, e tempo. Muito tempo. 

Mas lá voltaremos ao nosso Templo centenário.

Voltaremos a ter uma Casa renascida à nossa espera para todas e todas as noites de Natal que teremos até ao fim dos meus dias.

Uma noite. 

Nem que seja apenas uma. 

Lá chegaremos.

Juntos.

Podem ter a certeza disso, até porque a Vieira será sempre a nossa Terra!

***

O Tóino desde os 12 anos sempre quis ser arquiteto. E foi um aluno notável. Até me fica mal dizer isto.

Quando fazia transferências mensais para os meus filhos sabia sempre qual a conta dele. Tinha invariavelmente uns 20 euros de saldo. Transferia e telefonava-lhe sempre. “não precisas de mais? Só tens 20 páus.”

“Ná, chega para a semana toda. Almoço e janto na instituição.” A instituição era a faculdade de arquitetura de Lisboa, como também foi a Universidade de São Paulo.

Terminou o curso com uma média absolutamente elevada. É um puto descontraído.

Tem umas frases curiosas. Depois desta conversa e quando o deixei em casa 

ontem, 

disse-me: 

“sabes velho, o momento mais escuro é o que antecede a luz. 

É exatamente aí que estás agora. 

A luz vai chegar. 

Espera por ela.” 

Deixei-o com um enorme nó na garganta porque não fui capaz de começar a 

chorar à frente dele.

Arranquei assim que saiu do carro e tive de parar muito (muito) tempo. 

sozinho. A um canto qualquer sem que ninguém me pudesse ver.

Envelheci mesmo 20 anos nestas 4 semanas.

Essa é que é mais absoluta verdade.

E tirando a tempestade, sei bem quem foram os responsáveis.

Cretinos todos eles.

Nunca terão esquecimento, nem perdão, porque o perdão reserva-se para 

Deus, para os sábios e para os hipócritas que o professam, constantemente.

Eu não pertenço a nenhum destes grupos.

Limito-me a ser pai de três putos incríveis e com os valores certos. 

Apenas isso.

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