Biblioteca Coronel Aníbal da Silva Branco.

 


Em tempos de pouco rigor, memória ou respeito, cumpre sempre que alguém avive as estórias.

O Coronel Aníbal Branco, que como ele próprio se referia a si mesmo: “fumar é o meu único defeito”, foi um homem invulgar. Em todos os sentidos.

Aprendi muito com ele. Por vezes o Manel dizia, “tiveste mais cumplicidades com o meu pai que eu alguma vez tive”.

Não sei se é verdade, mas não concordo. De todo.

Com todas as suas imensas particularidades foi um vieirense notável. Um homem brilhante. Como poucos.

O primeiro chefe de esquadrão das primeiras “Asas de Portugal”. Piloto de aviões a jato como talvez muito poucos, desde o seu tempo. Oficial de carreira.

Homem com uma inteligência fina, humor desconcertante e, desde o acidente de aviação em África: “numa passareta Rui, caí de uma passareta, pá!”, nunca mais foi a mesma pessoa.

Procurou-se sem nunca se encontrar.

Inscreveu-se em diversos cursos superiores. Nunca terminou nenhum.

Foi-se cultivando naquela Lisboa cinzenta dos anos 60 ,70 e 80. Perdido em arquivos, bibliotecas, alfarrabistas, colecionadores. Recolheu um espólio monumental. Classificou-o. Guardou-o religiosamente.

E perdeu-se em sonhos.

Contou-me alguns, tal como fez com tanta e tanta gente que com ele privava.

Um dia disse-me no meio de uma conversa qualquer esta frase, que não era dele, mas eu, com 19 anos, achava que era e escrevia-a num guardanapo: “o melhor da vida é a riqueza das coisas simples”. Ouvi. E pedi-lhe, “diga lá isso outra vez”. Pedi o guardanapo, escrevi e guardei na carteira.

Construiu uma biblioteca fabulosa. Um arquivo monumental e encontrou no sótão duma casa de família que vendeu ao Partido Comunista da Marinha Grande, os “Arcanos dos Stephens”. Ou seja, as cartas trocadas entre João Diogo Stephens e o seu irmão Guilherme com todas as fórmulas químicas para a composição das diversas formas de vidro produzidas na Real Fábrica.

Contactou o então Presidente do município, Álvaro Órfão, consciente de que o que tinha acabado de achar pertenceria a toda a comunidade marinhense, deixando-o como ‘fiel depositário’ tentando posteriormente obter a devida autorização do seu irmão para procederem à doação desse património ao concelho.

Anos e anos passaram.

Nas celebrações do ‘Ano Internacional do Vidro’, foram necessários esses documentos e contactada a família para ceder esses direitos e o meu ‘irmão’ Manel da Silva Branco, padrinho do meu filho mais velho a quem, de resto, lhe ofereceu o seu nome, abordou-me no sentido de querer formalizar a vontade do pai.

Falamos, como já tínhamos falado antes, da biblioteca do seu pai. Reunimos com a Junta de Freguesia no sentido de elaborar um protocolo para doar essa Biblioteca à BIP, classificados todos os volumes e adaptadas as instalações da Biblioteca de Instrução Popular para poder receber todo esse acervo. Resolvidos os problemas da doação com a tia do Manel, que igualmente concordava com a doação dos ‘Arcanos dos Stephens’, escrevi a pedido do Manel um esboço de protocolo, tendo depois pedido ao meu velho Amigo, Dr. Rui Rodrigues que lhe desse ‘forma jurídica’ e que se reunisse com o então executivo na presença do doador. Foi engraçado ver os meus dois compadres na mesma ‘contenda’. Tudo correu bem, como seria de esperar. Até porque estávamos em vésperas do dia das Celebrações, no Teatro Stephens, do “dia internacional do Vidro”.

Foi a Helena que apresentou nesse mesmo dia a família do meu querido Manel da Silva Branco ao Presidente Aurélio. Sempre sorridente e colaborante.

Da parte da Biblioteca de Instrução Popular, nunca houve em quase três anos uma única palavra pública.

Uma única.

Normal.

No último dia 1 de Dezembro, por ocasião da celebração do 93º Aniversário, ouve-se, (sem espanto) a Presidente da Direção a reclamar do atual executivo municipal responsabilidades acerca do espólio do Coronel Aníbal da Silva Branco.

Não estranhei.

Já tenho anos suficientes para rigorosamente nada me espantar.

Pergunto-vos: só agora, passados quase três anos, porquê?

Porque sim. Digo eu que estou mais velho que a soma das idades dos meus 4 cães.

Perdeu-se tempo.

As razões disso, sinceramente, não me interessam nada.

O atual Presidente Paulo Vicente disse que registou.

O meu compadre Rui, disse que não lhe vai dar descanso, porque agora a ‘coisa’ é pública.

A coisa foi pública desde que na última Assembleia de Freguesia que decorreu na BIR na praia da Vieira há dois anos pedi a palavra para dizer a todos os fregueses presentes nessa sala cheia de gente, acerca deste esquecimento municipal.

Não pretendo reclamar nada.

Rigorosamente nada.

Apenas relembrar aquela frase que escrevi num guardanapo no bar ‘O Salão’, ouvida da boca do Coronel Aníbal da Silva Branco:

“o que mais importa na vida é mesmo a riqueza das coisas simples”.

Porque há sempre quem as complique ou adie.

Sem qualquer razão.

Ainda bem que anotaste Paulo.

Pena que o Presidente Aurélio nunca tenha sido confrontado com esta mesma realidade.

Mas, essa ‘omissão’ também a entendo.

Porque ando por cá há muitos anos.

E nunca tive muita paciência para coisas ‘aparentemente inexplicáveis’.

Ou explicáveis.

Por motivos esconsos, obscuros, colaborantes ou simplesmente sinistros.

No passado dia 1º de Dezembro, como foi dito pela Presidente da Direção da BIP, o Coronel Aníbal da Silva Branco teria completado 75 anos de associado.

Ainda bem, que restou essa memória.

 

PS: Esta foto, sou eu e o Manel a ver as provas das fotos do CD do Rancho Folclórico ‘Peixeiras da Vieira’ editadas pela BIP nos 68 anos da Biblioteca de Instrução Popular, onde convidamos o Maestro António Vitorino de Almeida para o apresentar.

Um Maestro de música clássica para apresentar folclore.

Sempre estivemos à frente Manel.

E sem nunca termos nada na manga.


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