Tia.



Tia.

Num dos seus últimos aniversários, fomos almoçar os dois ao Farto. Éramos bastante limitados financeiramente nessa altura das nossas vidas.

Uma dose para os dois.

Tínhamos ainda um jantar no Nélson para mais gente.

Foi a primeira vez na minha vida que passei o meu cartão de crédito sem saber antecipadamente se seria aceite.

Estas coisas marcam-nos. Como estar na caixa de um supermercado com meia dúzia de compras e ter de retirar alguns produtos por que o saldo da conta bancária não tinha provisão. Foi nesses tempos que comecei a diversificar os estabelecimentos onde me abastecia, é que não há maior vergonha do que escolher produtos previamente adquiridos e para os quais não há dinheiro para os pagar e ver ou sentir os comentários de toda a gente que me conhece desde miúdo e à espera na fila de pagamento. “mas como é que o filho do Armando Teodósio chegou a isto? Coitado do pai dele. Deve estar a dar voltas na cova.” Eu com três filhos a quem nunca faltei e tantas e tantas vezes me deitei sem ter jantado. Com 300 páus de reforma e com meia dúzia de rendas ridículas que herdei e com dividas enormes à banca que sempre soube honrar. Sim, porque me ensinaram que as dividas, todas as dividas se honram. São uma questão de ‘verbo e de verba’. Honrar compromissos! ‘Verbas e com verbo’.

A minha tia Helena Branca, primeira mulher em Portugal a ser eleita democraticamente Presidente de uma Junta de Freguesia, apesar de adorar poetas e poesia, como Alexandre O’Neil por exemplo, Ary, Manel Alegre evidentemente. Enfim. Era uma mulher culta e extremamente sensível e tinha um ‘tique’ engraçado. Talvez porque se habituou ao rádio.

Tinha três. E praticava essa dependência como se de um ritual se tratasse.

Tinha um à cabeceira na antena 1. Outro na cozinha e outro na sala. Todos sintonizados na mesma estação.

Um dia, de manhã cedo, entrei no seu quarto e ouvia esta música. Nem interrompi. O meu pai tinha todos os discos da Simone, que ainda hoje guardo. Dizia ele, “a Simone canta com as mãos”.

“Sol de Inverno”.

No fim, de ouvir essa cantiga, ela já velhota, só me disse, teatral:

‘é assim que me sinto agora, um sol sem calor’.

Disparatei com uma piada qualquer, mas nunca me esqueci desse momento.

No dia 11 deste mês faria 96 anos.

Aquela que sempre esquecida foi.

Foi necessário que a Professora Catarina Sarmento e Castro a ela se referisse para virem agora e em manifesta abundância todos os sinistros e esquecedores convenientes do tempo, aplaudirem entusiasticamente tão estranha amnésia coletiva, quando antes ocuparam importantes cargos que importavam a que certas memórias não fossem atiradas para os caixotes do lixo da história e da execrável forma de se ser conivente com o cinzentismo e falta de memória.

“Enfim”, … como diria Álvaro de Campos.

Por vezes, é bem melhor estar calado.  


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