"Sou do Benfica e sou um gajo Poleilo."

 


Sou um homem completamente livre.

Não tenho horas para nada, vivo dos meus rendimentos, não pertenço a partidos ou outras organizações. Tenho 3 filhos maravilhosos e encontro-me há anos perdidamente apaixonado pela mulher da minha vida.

Sou sócio de 5 associações magníficas: a Biblioteca de Instrução Popular, o Industrial Desportivo Vieirense, os Bombeiros Voluntários da Vieira, o Jardim dos Pequeninos e do Sport Lisboa e Benfica.

Não devo obediência a chefes, patrões, interesses e todas essas merdas que tantas vezes condicionam comportamentos, caracteres e atitudes.

Confesso que depois de determinada altura transformei-me num privilegiado. Tenho noção disso. No entanto e antes disso, sempre manifestei as minhas opiniões em privado e em público.

Odiei o mandato da Presidente Cidália e do inefável Nélson Araújo (que tanto mal fez à sua gestão), prejudicando deliberadamente a minha terra. Gosto pouco de assumir umas posturas em privado que contradigam depois as minhas posturas em público. Sou doido, como muitos me chamam. Até gosto disso, porque são sempre os marginais desta vida que fazem avançar o mundo com alguma visão, coragem e livre pensamento. Por se encontrarem à margem da carneirada que nunca nada acrescenta, apesar de sempre vencer.

Votei na Alexandra Dengucho e no Luís Guerra Marques. Nunca depositaria o meu voto na Cidália e muito menos (como se provou) no incompetente, canalha e vendido Curto Ribeiro. Sempre desprezei o João Paulo Pedrosa e o António José Ferreira.

Enganei-me diversas vezes no julgamento de certas pessoas. Para o bem e para o mal.

A curiosa virtude dos enganos é ter a capacidade de os reconhecer.

Sempre tive essa qualidade.

Reconhecer quando erro.

Quando parti o cartão de militante do Partido Socialista fi-lo apenas porque detestei chafurdar na discórdia estéril, agressiva e inconsequente.

Pergunto: outros antes de mim fizeram o mesmo. Rasgaram as suas vestes e partiram o cartão. Porquê? Eu sei porquê! É a enorme chatice de ter a memória intacta.

Com os anos, deixaram de me importar as decepções que fazem parte da vida. São normais. Desgostam-me apenas quando de pessoas que amamos ou simplesmente simpatizamos se tratam. Mas já não me tiram o sono.

Detesto a soberba, a vaidade, o ressabiamento e a inveja breve.

Odeio tudo isso.

E se Deus Nosso Senhor me conceder vida e saúde, continuarei assim até ao meu último dia.

Há, no entanto, algumas sinistras figuras que temo. As cobrazinhas. Antes de nos morderem com o seu mortal veneno e como não fazem barulho quando se aproximam e eu sou um gajo muito distraído, quase nunca dou por elas. Por isso sempre me lixei com essa espécie de gente. Sou distraído. Monumentalmente distraído como me repete à exaustão a Helena.

Outra espécie de gente também me perturba imenso são os lobos com pele de ovelha.

Conheci por mero acaso dois.

Ontem.

Quando um gajo faz por esquecer tudo o que de pior lhe aconteceu há uns anos (bastantes anos atrás) e de repente tudo vem ao de cima novamente, é lixado.

Herdei duas coisas dos meus pais.

A bondade e o perdão.

A pior herança que alguém pode pedir.

Tenho de começar a fazer o que a minha Helena sempre me diz. Ser muito mais seletivo, nas minhas companhias, nas minhas ‘amizades’ e nas minhas paixões.

As gajas têm quase sempre razão nestas coisas.

A minha mãe muitas vezes dizia à minha tia HB: “se a Helena Branca tivesse um filho, nunca teria um tão igual si como o Rui António”.

Estava completamente errada a minha velhota.

Agora é que chegou o momento de tentar ser completamente parecido com a minha tia HB e desprezar quem tem de ser desprezado. É que a minha tia era assim.

É mesmo a única coisa que me falta para ficar igual a ela e deixar o perdão (que a minha mãe sempre teve) para pouquíssimas pessoas. Aquelas que também têm essa rara capacidade. De nos perdoar.

Porque a Misericórdia absoluta e o perdão competem apenas a Deus.

E eu sou apenas um homem vulgar.

Nada mais que isso.

E como dizia quando tinha três anos:

“sou do Benfica e sou um gajo poleilo.”


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