Psia.
Hoje é o dia dos mortos.
Sublime dia.
Nunca me detive sobre esta data. Não vou ao cemitério. Não
tenho nem nunca tive essa necessidade.
Está cheio de flores e de breves e ridículas e hipócritas
ostentações.
Não me dou com nada disso.
Atravessei 5 mortes muito intensas. Bastante sofridas todas
elas. Sinceramente nunca saberei qual delas a mais triste e profundamente amargurada.
As duas primeiras foram demasiado brutais porque repentinas e
completamente inesperadas.
A minha tia Julieta que tinha trazido nos braços e deitado na
sua cama, no quarto onde tenho dormido nos últimos anos, após duas horas,
morreu a dormir como uma vela que uma breve brisa tivesse apagado.
Para mim tinha acabado de cair todo um mundo inteiro.
A segunda foi a do meu pai que adormeceu nos meus braços,
após me ter despedido dele minutos antes com um “até amanhã pá”.
Depois e num longo, bastante longo processo de sofrimento e
passados apenas dois anos foi a minha mãe com uma doença oncológica.
Ainda hoje penso que a minha mãe inventou aquilo para mais
depressa ter ido ter com o amor da sua vida.
Houve passado muito pouco tempo a única morte que tive a
capacidade de ter sentido que estaria por perto.
Foi a da minha ‘avó’.
A minha muito querida Psia, como sempre lhe chamei. As saudades
que tenho dessa maravilhosa mulher.
Às vezes penso quem gostaria de encontrar à minha espera lá
do outro lado e só dela me lembro.
Nem do meu pai, nem da minha mãe, nem da Leta, nem da minha
tia HB.
Só me vem à cabeça a Psia.
Porquê?
Porque com todos os meus pecados e loucuras, só a ela sinto
poder encarar com toda a naturalidade do mundo.
Deste e do outro.
No dia em que morreu, ia eu para o banco cedo trabalhar e
sabia que estava doente em sua casa.
A meio da estrada da Marinha, fiz inversão de marcha. Nunca
saberei porquê. Senti essa inexplicável vontade e voltei para a Vieira.
Entrei em casa dela.
Fui ao seu quarto e ela só me disse isto:
“Estás tão lindo”
Saí a esconder as lágrimas e fugi para o banco.
Passadas poucas horas a Lígia telefonou-me a dizer que a Psia
tinha partido.
A falta que me tem feito a minha ‘avó’.
Até hoje.
Foi a única das minhas cinco mortes que soube prever.
Ainda bem.
Pude despedir-me condignamente de uma das pessoas que mais amei
na minha vida inteira. Mas repito, a falta que me tem feito.
A minha tia HB foi a última a partir uns anos mais tarde,
após uns anos de muito sofrimento.
Todas as despedidas são duras.
Muito duras.
Inesperadas umas, dilatadas no tempo outras. Com a Psia foi a
única que consegui prever.
Não foi mais fácil por isso.
Talvez a mais difícil de todas.
E todas absolutamente difíceis foram.
Querida Psia.
Dá um beijo a eles todos por mim hoje.
A falta que me têm feito.
Talvez imaginem.
Talvez.
Não creio.



❤️
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