Lélito, o Pinóquio.
Nós na Marinha somos tão à frente que também tivemos o nosso Andrezito.
Um homem que nunca foi rico, mas sempre procurou ser.
Formou-se no Técnico em engenharia de materiais. Filho de
padeiro, nascido e criado nos subúrbios da Marinha Grande. Em Pataias. Sonhou
sempre frequentar a urbe. Crescer e aparecer. Depois da formatura procurou
singrar no meio de industriais de sucesso. Um trabalho aqui, outro ali. Sempre
com um sorriso, para uns cativante, para outros nojento, por demasiado cínico e
afetado. Década e meia de trabalho, o senhor engenheiro, entendeu partir para
um projeto empresarial. Vender assentos de plástico para recintos desportivos.
Bastava para isso muito trabalho de ‘penetração’ no mercado, uns dois ou três
moldes e promover vendas de cadeiras por esse mundo fora.
Com uma lábia invulgar, lá foi vendendo cadeiras e assentos,
por aqui e por ali. Tinha um único propósito. Singrar, enriquecer, sentar-se à
mesa da pretensiosa elite industrial, que, nunca lhe deu grande confiança.
Detentor de uma invulgar capacidade de persistir nesse objetivo,
nunca desistiu desse desiderato.
Ganhou uns tostões. Não muitos, mas dava para disfarçar. Um
dia ou uma noite, alguém se lembrou do homem para o convidar para os Rotários
da Marinha. Um clube de vaidosos, quase todos bem na vida, que gostavam de
exibir caridades de toda a espécie por forma a mostrar que são boas pessoas que
se preocupam com os coitadinhos da vida. Jantares de gala, conferências e cabazes
de Natal, ostensivamente mostrados à sociedade. Uma elite exibicionista.
Lá entra o homem e só descansa quando se transforma em
presidente daquilo.
Começa a escrever no jornal local. Coisas pretensiosas de cariz
político, com manifestas preocupações sociais, económicas, culturais (como se
algum dia tivesse sido culto, coitado). E lá foi aparecendo debaixo das luzes
dos holofotes de uma cidadezinha pequena, com uma pujança industrial enorme e
raízes políticas antigas.
Destaca-se na mediocridade dos dias, numa terra onde se
trabalha e se cria riqueza diariamente.
Com um ego anormalmente dilatado, produto de complexos vários,
resolve começar a alimentar o sublime propósito de ser alguém.
Na política. No poder. No palco.
O problema é que, em todas as terras pequenas, toda a gente
conhece toda a gente e ninguém o queria para nada. Rigorosamente partido nenhum
o queria para nada. Para esses agentes de poder, o Lélito das Cadeiras era um
Zé Nínguém.
Um ‘cagão remediado’.
Obstinado por uma força anormalmente grande resolve criar o
seu próprio grupo.
Por essa altura, a política e os políticos não estavam com
grande imagem pública e o homem surfou essa onda.
E fê-lo com manifesta sabedoria. Rodeou-se de gente igual. “Apolíticos”.
Rodeou-se dos “puros”, dos “melhores” que a sociedade civil jamais tinha
produzido e outros ressabiados do costume (que antes tinham feito parte do
sistema partidário e o tinham abandonado ou escorraçados por ele foram).
Mas, dizia eu, foi crescendo esse descontentamento e ele, Lélito, sempre na
liderança do descontentamento. A cavalgar a onda. Sublime e eficaz o rapaz de Pataias.
Apresenta-se a eleições como líder incontestado de um
movimento ideologicamente acéfalo.
Gente ressabiada. Do contra e alguns ingénuos que simplesmente
desejavam participar.
Elegeram dois vereadores à Câmara da Marinha.
E começa o verdadeiro espetáculo!
As reuniões do executivo passaram a ser filmadas e o homenzito diverte-se imenso a falar para as câmaras de uma forma assaz ridícula e contundente. Diz mal de tudo. Reprova tudo. Diz o mesmo e o seu contrário, num afã constante. Todas as semanas escreve tratados de sociologia local com a frase final: “connosco tudo seria diferente!”
Vivem-se tempos de extrema
exigência e bastante enfado com os atrasos, incompetências breves e ridículas
guerras político partidárias.
Num tempo onde a importância das redes socias é enorme e abundam anónimos e comentários encapuçados, resolve
construir com o diretor do jornal local e mais alguns azedos de todas as
cores partidárias um blogue de anónimos, começando desta forma um projeto de destruição do
poder estabelecido.
Ganha novamente dois vereadores nas eleições seguintes e continua na sua senda de destruição
absoluta, votando contra tudo e contra todos, sempre a sorrir cinicamente para
as câmaras que filmavam as reuniões do executivo, continuando a escrever
semanalmente no 'jornal da paróquia' o estafado slogan “Connosco seria diferente!”
Vocifera. Gesticula, ridiculariza tudo quanto cheira a
partidos políticos e ganha espaço. Ganha gente. Ganha esperança.
Vence, finalmente as eleições!
Constituí governo.
Tem a mais absoluta complacência dos vencidos que até se
coligam com ele, constituindo maioria estável durante metade do seu mandato.
Mente.
Mente.
Mente.
Ofende os seus opositores de forma primária. Consegue
antipatias evitáveis com presidentes de junta.
Nomeia um exército de seguidores absolutamente incompetentes.
Nada faz. Com propósito. Com planeamento. Com inteligência. Divorcia-se de 99%
dos trabalhadores da autarquia. Exaustos. Desrespeitados. Perseguidos.
A imprensa local protege-o até ao fim, com editorias e
notícias inclassificáveis a troco de páginas e meias páginas de publicidade
paga pelo município.
Chegam as eleições.
Nada a apresentar!
Cai.
Estrondosamente!
Teve poder. E teve o poder absoluto.
Revelou-se o que sempre foi. Um tipo menor. Vulgar. E parvo.
A única diferença que encontro entre esta personagem real e o
André Ventura, é que um teve poder e o outro ainda não!



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