Django.
A opinião vulgarizou-se. Hoje em dia, toda a gente tem
entrada livre no ‘palco de opinar’. Basta pertencer a uma ou diversas redes
sociais que pode, apenas porque livre acesso a essas plataformas tem. E pode opinar em
absoluta abundância.
Sempre adorei ler as opiniões bem escritas dos outros, desde que
bem estruturadas e pensadas fossem.
Quando tinha 20 anos lia o Jornal de Letras, o Sete, o
semanário ‘O Jornal’ – de esquerda, o ‘Independente’ - de direita e, claro o ‘Expresso’
com o seu cinzentismo prenhe do politicamente correto só próprio dos prudentes
de todas as vidas. Em todas estas publicações pontificavam a inteligência, a
opinião culta, séria e extremamente bem justificada.
Foi nestas paragens que conheci o José Carlos Vasconcelos, O Baptista-Bastos, o Pedro Rolo Duarte, o Miguel
Esteves Cardoso, o Paulo Portas, o Vasco Pulido Valente, o Carlos Cáceres
Monteiro, o Vicente Jorge Silva, a Teresa de Sousa, o Álvaro Vasconcelos, o Miguel
Sousa Tavares, o Fernando Assis Pacheco, enfim. ‘The crème de la crème’ da
política e do jornalismo português.
Quem queria ler opinião, lia jornais.
Hoje, feliz e infelizmente já não é bem assim.
Toda a gente opina numa vulgaridade e abundância que por
vezes nos faz mal.
Multiplicam-se as partilhas de artigos que pensamos estarem
bem escritos, misturados de opiniões avulsas da nossa própria lavra.
Contra mim falo, evidentemente.
No entanto, têm existido, com cada vez maior frequência,
manifestações gratuitas de ódio puro e contra opiniões, para quem, em regra, coloca em causa todos os extremismos. Essencialmente vindas da direita burra, trauliteira e
ultramontana. De cada vez que, seja quem for, publique ou republique um texto
onde o Chega e algum dos seus líderes é posto em causa, proliferam Ad nauseam,
comentários que pretendem enxovalhar o mais tolerante dos mortais. E isto ocorre
concertadamente. São sinistras manifestações de ódio puro e duro, alguns com
ameaças veladas, até à integridade física de quem se atreveu a discordar desta
canalha, cheia de 'valentia de teclado', mas que normalmente evidencia comportamentos
que ‘ao vivo e a cores’ e quando sozinhos se encontram, transformam estes super-heróis
atuais, em ratinhos de laboratório. Nada de novo.
Desde que atingiram estas colossais votações, começaram a
sair da casca onde estiveram recolhidos durante décadas a concordar com tudo e
com o seu contrário, como qualquer fdp do sistema, a começar pelo ex-militante e candidato autárquico do PSD André Ventura.
Uma coisa é discordar ou mesmo discordar com veemência. Já
outra, bem diferente, tem sido o recurso gratuito ao insulto primário, injustificado
e recorrente.
No caso do nosso Parlamento – casa da democracia – temos assistido
diariamente a um espetáculo degradante, patrocinado em grande medida, por um
cobarde, em quem nunca o Partido Socialista deveria ter votado para ‘primus
inter pares’. Colossal erro! E, estes
erros primários pagam-se caro.
Voltando às redes sociais, quantas vezes me pergunto se vale
a pena permanecer nelas e partilhar opiniões.
A primeira conclusão a que chego sempre é que não. Não vale.
Depois de refletir um pouco e considerando importante o facto de que se toda a
gente desiste do seu importante papel na defesa da democracia, estes animais
ficam, tal como desde sempre quiseram ficar, a falar sozinhos. A espalhar ódio
alegremente para cima de todos e de tudo o que decente é.
Quanto a mim, que sou apenas um tipo vulgar que gosta de
escrever, restam-me 4 possibilidades:
Ou escrevo sobre memórias e emoções, pequenas estórias
pessoais carregadas de sentimentos diversos e lembranças antigas, ou escrevo
sobre política local, as suas estratégias, posicionamentos e protagonistas que
conheço bastante bem, ou me fico por manifestações de carinho e amargura.
Para os intelectuais da nossa praça, são sempre temas menores e a
desconsiderar. Ridicularizar até. Talvez porque me revelam ser um tipo mediano,
como medianos são sempre esses escritos, que raramente merecem uma interação ou comentário.
Um dia, há alguns anos o inefável João Paulo Pedrosa, devolveu,
e bem, esta frase ao saudoso Júlio Gouveia, que tal como eu adorava escrever.
“Quem escreve é para ser lido”.
Nunca me esqueci desta elementar verdade. Nunca.
E, por vezes, tantas vezes, para se sublinharem pensamentos,
teorias e justificações dos tempos que se vivem, nada melhor que recorrer ao
básico e procurar dentro de nós e das nossas pequenas e ridículas memórias
pessoais e familiares, sublimes e eternos exemplos de liberdade, de respeito e de
esperança que tanta falta nos fazem nos tristes tempos que ora se vivem.
É sempre mais fácil do que fazer breves ou longas citações de
autores que se consultam em parágrafos de recensões criticas ou badanas de livros do TOP
five da geopolítica ou da geoestratégia e do pensamento da pós modernidade.
Vou continuar a escrever as minhas coisitas simplórias e ridículas do costume.
É que, como em qualquer fábula infantil, quase todas as minhas historietas banais têm a sua 'conclusão’ e o prazer que me dão estas partilhas e grande número de leituras que registam, deixa-me orgulhoso, que é sempre o prazer que um vaidoso e tipo vulgar como eu também procura.
Lá vou conseguindo chegar a muita gente, mesmo àqueles que estoica ou
cinicamente fingem ignorar tudo o que vou deixando escrito.
Mesmo uma foto de família ou uma conversa sobre um filho, uma varanda
ou momentos de rara e serena felicidade.
Ontem, talvez o melhor Amigo, de entre alguns que ainda tenho, disse-me
isto: "tu és um parvo que escreves com o coração, mas não escrevas nem
publiques mais nada sobre a Nazaré. Não o faças. Isso só provoca invejas."
Eu, bronco, só respondi: "mas eu, da Nazaré, só partilho estados de espírito
pá.
Serenidade. Paz. Felicidade pura."
"Não voltes a fazer isso."
Passei o dia a pensar nisto. O dia todo. Calado. O dia todo calado.
A Helena, para mal dela coitada, já me conhece bem. E só me disse assim:
"Estiveste o dia todo a escrever em silêncio, não foi?"
Nem respondi.
Fiz um arroz de tamboril fabuloso. Devagar. Sozinho e sem emitir um som
que fosse, que é como adoro cozinhar.
Acompanhado por um branco fresquinho do Douro.
Fui fumar um cigarro para a varanda. Ainda o sol não se tinha ido embora.
Depois lembrei-me do monumental filme de Tarantino.
"Django."
Há uma cena fabulosa em que o protagonista aparece numa fazenda do sul
com um negro livre a montar um cavalo. O escravo, uma espécie de
mordomo do senhor daquele enorme campo de algodão que até o tratava por
tu, ficou indignado com tal atrevimento. Um negro livre a cavalo! E
manifestou-se então com enorme veemência contra aquela afronta. E,
virando-se para o seu senhor, só dizia: "Tira imediatamente aquele preto do
cavalo."
O senhor branco só lhe respondeu: "mas tu queres um cavalo como o dele?"
A resposta foi: "mas para que é que eu quero um cavalo senhor? Eu só não
quero é que ele tenha um!"
A mais soberba tradução da palavra inveja que conheço.
Maravilhoso arroz de tamboril que fiz hoje.
Longamente e a olhar para este mar onde me tenho perdido.



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