Tradições Carnavalescas.
Mascarei-me em diversos carnavais. Ou melhor, mascaravam-me.
Era puto e achava graça aquilo. Contrariamente ao meu Compadre Rui, que tb era
mascarado pela minha tia HB, mas simplesmente, não achava graça a nada. Desde
muito novo, foi sempre um gajo muito sisudo!
Posso dizer que, em boa verdade, há 50 anos que não visto
nenhuma fantasia carnavalesca.
Ontem, fui ver o Carnaval na Nazaré. Apareceu-me em casa o
meu primo, pela hora de jantar, vindo da folia de 4 dias e quatro noites
seguidas. Com uma alegria contagiante, lá nos levou para o centro da Nazaré,
onde entravamos e saíamos de todos os bares cheios de gente alegre e mascarada,
com música feita, tocada e cantada por nazarenos (nada de brasileiradas).
Todos os restaurantes cheios de clientes ….. mascarados, e
aparentemente, muito felizes!
Os nazarenos são mesmo um povo à parte!
Quando o meu António jogava no IDV, costumava dizer que o
pessoal da Nazaré tinha um bairrismo incomparável, que os nossos jogadores não
encontravam em mais nenhum adversário. Era outra gente.
As tradições carnavalescas na Nazaré são antigas e profundas.
Tive colegas no BCP da Nazaré, bastante formais na sua conduta profissional
diária, mas, … quando chegava o Carnaval tiravam a semana inteira de férias e
simplesmente transformavam-se em múltiplas personagens, descontraídas, alegres,
totalmente informais e ‘desconcertantes’.
Ontem, pela primeira vez em 50 anos, senti-me como peixe fora
de água, simplesmente porque não estava mascarado no meio daquele mar de festa,
de cor, de música e de alegria contagiante.
Nos cinzentos e preocupantes tempos que vivemos, a Festa do
Carnaval, do entrudo, das máscaras e do simbolismo das mesmas, podem e devem
fazer-nos pensar de uma forma descontraída e leve sobre problemas sérios.
O meu primo Zé, vive esta semana com uma intensidade indescritível!
Pensa e concebe as suas fantasias, concorre sempre no Baile
de máscaras do Casino (da Coletividade do Rancho Tá Mar) e tem acumulado
primeiros lugares nos últimos anos.
Este ano construiu um fato feito de latas velhas. Açambarcou
mais um primeiro prémio.
Se me quisesse armar em intelectual divertido (sim, porque a
esmagadora maioria dos intelectuais não tem piada nenhuma), diria que o Zézinho
fez uma criação artística a ridicularizar ‘os vestígios de uma sociedade de
consumo imediato’. Lataria de diversas marcas de bebidas (cheias de álcool,
corantes e conservantes), que fazem as delícias da nossa sociedade atual.
Não sou intelectual, por isso não me atrevo a tentar
classificar ou justificar a escolha do meu primo.
Estava divertido, feliz, fez os outros felizes e ganhou mais
um primeiro prémio.
As tradições, pelo menos as boas, devem ser sempre
preservadas. Isso é certo. Não se devem manter algumas tradições, só porque se
limitam a ser tradições. E nada mais.
Isso, por si só, não significa rigorosamente nada de
relevante.
O ano passado, mascarou-se de raspadinha. Mais um primeiro
prémio.
Poderia justificar essa opção do meu primo, como uma sátira à
atração quase patológica dos portugueses pelos jogos de azar, nomeadamente
pelas raspadinhas, que todos, uns mais que outros vamos observando na compra
constante e compulsiva por aqueles ‘papelinhos verdes’ para raspar com enorme
frenesim, como quem se debate numa ‘luta de tudo ou nada’.
Não foi de certo com esse sarcasmo ou tentativa de
ridicularizar comportamentos compulsivos que deve ter inspirado o meu primo a
conceber tão monumental fantasia.
É um gajo simples.
Leva o Carnaval a sério. Pretende divertir-se e divertir os
outros. E ganhar sempre o primeiro prémio.
Porque será que a busca pela simplória felicidade pura e
dura, por vezes é tão mal compreendida por todos os ‘fotógrafos’ deste tempo?
O apelo às tradições, apenas, por tradições serem, por vezes
disfarça tendências retrógradas e reacionárias.
Ouviu falar na aposta do Presidente da Câmara de Lisboa nos ‘Unicórnios’.
Quando lhe perguntei de que se iria mascarar para o ano,
respondeu-me imediatamente: “de unicórnio”.
E depois disse-me assim: “À Ruizinhe, mascarame-nes os dois pó
ane e ganhemes de certeza!"



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