Dia da Mulher.
As
primeiras eleições autárquicas livres em Portugal decorreram há 49 anos!
1976
foi o ano.
Ainda
não se encontrava escrita a ‘Lei das Finanças Locais’, sendo os meios
financeiros, técnicos e humanos disponíveis a uma Junta de Freguesia ou até
mesmo a qualquer Câmara Municipal em Portugal, substantivamente diminutos e
condicionantes a qualquer medida ou obra pública por mais urgente e necessária
que fosse.
Tanto
nas freguesias da Vieira, como em Leiria o Partido Socialista venceu claramente
as eleições.
Conheci
bem e fui Amigo do primeiro Presidente da Junta de Leiria, Henrique Cabrita
Franco, um cavalheiro, um Homem Bom, Honrado e Digno. Como agora é muito raro
encontrar nestes palcos da política local, repletos de gente medíocre e, com
interesses próprios mais do que evidentes e definidos.
Disse-me
o Cabrita diversas vezes, que para poupar no orçamento da Junta de Leiria,
deslocava-se em viatura própria aos diversos locais da freguesia e telefonava
muitas vezes da sua casa para não utilizar o telefone público da sua Junta.
Ouvi
e assisti a muitas histórias idênticas em minha casa. Tive esse raro
privilégio.
Décadas
antes de abril de 74, respirou-se sempre política, ideais, democracia e
participação cívica. Era tema obrigatório. Éramos uma casa de democratas e
republicanos, onde alguns princípios sempre se encontraram escritos ‘nas Tábuas
da nossa Lei’.
Princípios
esses, que numa breve análise, deixaram de contar para a maioria. Não existem,
resistem, no carácter de cada vez menos gente na vida pública. Quando a mentira
deixou de envergonhar o mentiroso, esse facto diz muito acerca da opinião que o
povo tem acerca de quem mente! E da natural irrelevância da mentira
propriamente dita.
A
primeira experiência com cariz político que tive, foi para aí aos 5 ou 6 anos,
quando o meu pai me agarrou em frente da minha mãe e me disse: “Diz assim -
abaixo o Marcelo Caetano!”. A minha mãe, coitada, como sabia que eu era uma
caixa de repetição só comentou: “Oh Armando não digas essas coisas ao menino.”
Nunca
me esqueci disto, apesar de ser tão novo.
Todos
os partidos com bastante implantação na Vieira, tinham um ideal, uma carta de
princípios, um programa, diversos rostos. Transpirava-se política, nos cafés,
nas fábricas, nas Associações locais e nas casas de cada um.
No
meu Concelho a política dividia-se entre os dois maiores partidos, o PS e o
PCP. Existem ainda militantes de ambas as forças políticas que não conseguem
ultrapassar diferenças antigas. O que, a meu ver é um perfeito disparate, sem
qualquer justificação.
Com
os anos e com a vida, fui construindo amigos no seio do PC da Marinha. Muitas
vezes partilhamos a ideia de uma coligação estável e duradoura, que permita
construir o nosso futuro coletivo com visão de médio-longo prazo, aquele futuro
a que não assistiremos, e não, o futuro do imediato, do populista, do eleitoral
ou, por outras palavras, o futuro da espuma dos dias que passam.
Em
1976, a taxa de abstenção na Marinha Grande foi de 28%. Em 2021 registou um
score de 52%.
Penso
que estes factos muito dizem acerca dos tempos que correm e da forma como a
política local é vivida e sentida pela nossa população!
Os
tempos eram diferentes, principalmente porque a essência das pessoas também o
era. Poucos são os vieirenses que com a minha idade poderão testemunhar certos
episódios ocorridos nas primeiras duas décadas de democracia local, como eu,
felizmente posso.
A
FEPU e mais tarde APU foram as coligações democráticas onde imperava o Partido
Comunista, que teve durante os primeiros 20 anos de democracia um papel
preponderante no governo do nosso Concelho e da minha Freguesia.
Nesses
tempos e depois da ausência de sede do PS na Rua Pires de Campos, todas as
reuniões ou quase todas eram realizadas na sala da minha casa, no escritório do
meu pai e, depois disso, em salas que o meu pai graciosamente disponibilizava
ao Partido num imóvel que possuía no centro da “aldeia” da Vieira.
Aldeia
sim. Não me enganei a escrever.
Não
fui um apoiante da candidata Cidália Ferreira nas eleições de 2021 para a
Câmara. Todos o sabem.
A
consciência, o nome, e a nossa assinatura não têm preço. Foi assim que me
ensinaram. E para o meu bem ou para o meu mal são esses alguns dos valores que
procuro deixar aos meus filhos.
Estou
a falar das eleições de 2021, porque no dia eleitoral retive duas imagens que
ainda hoje me marcam e desgostam profundamente.
A
primeira foi uma fotografia publicada nas redes sociais onde se vê a candidata
Cidália Ferreira a caminhar completamente sozinha para o local de voto.
Sozinha, vista de trás a bastantes metros de distância e, sem ninguém ao seu
lado.
A
segunda imagem que retive foi na assunção da derrota, com meia dúzia de
socialistas perto.
Houve
até alguns indefetíveis dessa candidatura que nessa mesma noite eleitoral
retiraram das suas páginas de Facebook todas as imagens de campanha onde tinham
participado. Outros houve, mais radicais que fecharam as suas páginas nas redes
sociais.
Se
estou a contar estas tristes curiosidades, é porque sou do tempo em que era um
prestígio representar o PS, mesmo sabendo que era a derrota que os esperava.
Como foi o caso da Drª Maria Fernanda Pinto, na sua candidatura a presidente da
Câmara ou mesmo a da minha mãe como candidata a presidente da Junta da Vieira.
Eram duas derrotadas e sabiam-no. Foram dignas representantes do PS, ambas!
Nesse
tempo, o partido socialista não abandonava os seus. Nem nas derrotas.
Temo
que o principal problema do nosso Concelho tenha residido no infeliz facto, da
bipolaridade entre PS versus PC, em nada ter ajudado no seu desenvolvimento. O
mercado da Marinha é disso um exemplo evidente.
Foi
sempre um Concelho do estou certo ou estou errado, do branco e do preto, do bom
e do mau numa dicotomia esgotante que condicionava a aprovação dos projetos à
força política que os queria implementar. Veja-se o que ainda neste mandato se
passou com o terminal rodoviário e a perda dos fundos comunitários que se
encontravam aprovados a fundo perdido na ordem dos 85% do total do
investimento. A esta hora já se encontrava construído e em pleno funcionamento.
Por
vezes, como diz o povo, o “ótimo” é inimigo do Bom.
Apesar
de todos estes pesares, o poder autárquico, trouxe um
inegável e brutal desenvolvimento em todo o país. A modernização de muitos
serviços públicos no que respeita á construção das infraestruturas necessárias,
ao poder local o deve. No desporto, na educação, nas vias de transporte, na
cultura, no apoio social entre muitas e muitas outras valências, como é sabido.
Nestas quase cinco décadas os partidos foram os pilares do desenvolvimento local do país. A
vergonha, a desonra na mentira e a honestidade intelectual não eram chavões de
circunstância. Eram valores que deitavam abaixo candidatos e elevavam outros.
Nesses tempos, por exemplo, nunca um presidente de Junta prolongaria até à
exaustão a sua permanência no executivo, tendo feito negócios consigo próprio.
O que agora, para certas pessoas fortemente ‘apartidárias’ parece não ter escandalizado.
Alguma vez, na Vieira por exemplo, as tão famosas três ruas estariam ainda por reparar, ainda mais com um aval público da população interessada?
Tenho
saudades de toda essa gente. Algumas até do partido comunista ou do partido
social democrata. Era gente com valores quase na sua totalidade.
Agora
ainda as há, como sabemos, mas fica a pergunta:
Serão
suficientes?
Contrariamente
ao que a maioria da turba pensa, os sonhadores sempre tiveram lugar nas
democracias e na sociedade. E, quando a tecnocracia os deseja diminuir ou
substituir, normalmente dá mau resultado, como de resto se tem assistido na
nossa Câmara com estes protagonistas com agendas próprias e necessidade de
palco para disfarçar alguns complexos e traços de personalidade exibicionista,
com um pendor fortemente narcísico que roça tantas e tantas vezes o ridículo.
Estas figuras têm usado e abusado do populismo e do discurso de café,
ingredientes típicos de todos os demagogos desta e doutras vidas.
Onde
estiveste Aurélio nos primeiros 39 anos de democracia local que nunca ninguém
te viu com a cabecinha de fora dos arbustos?
Pois,
deves ter estado demasiado ocupado contigo próprio e com os teus interesses, o
que, para um homem como eu, é absolutamente desonroso, para não dizer outra
coisa. Porque vivemos em sociedade e também com ela nos devemos sempre
preocupar. É a chamada ausência de egoísmo, porque pensar nos outros, não é
apenas uma virtude, é sempre uma natural obrigação.
O
+MpM está, como sempre esteve, circunscrito a auto denominados anónimos e
ausentes da vida pública, que agora aparecem nas redes sociais e na Assembleia
Municipal cheios de si próprios e da sua visão distorcida da vida e da
sociedade.
Os
medíocres e os novos ricos, que bem vistas as coisas, nem ricos são! Têm uns
tostões no banco e ausência total de visão de futuro para a sua comunidade.
Simplesmente porque nunca se preocuparam com ninguém, para além de si mesmos,
das suas famílias, das suas empresas e da sua agora necessidade obsessiva de
palco.
Estava-me
a esquecer, naquelas eleições de 1976, a primeira mulher presidente de uma
Junta de Freguesia em Portugal era da Vieira!
E
pertencia a uma lista de um partido político, apesar de ser, por essa altura,
INDEPENDENTE.
Tal
como independentes foram muitos candidatos em todas as listas de partidos
democráticos.
Dúvidas
não restam, em como tudo se alterou.
Para
muito pior, digo eu, partindo do triste exemplo do atual executivo municipal.
Desde
a postura dos Vereadores eleitos nas listas do PS, como na conduta errante e
medíocre do +MpM.
Restam
as Vereadoras da CDU, honra lhes seja!
Por
vezes, para admirar e respeitar o valor dos outros, não temos de partilhar dos
seus ideais, cumpre-nos a todos respeitar apenas a sua integridade e a sua
conduta. O que em boa verdade tem faltado aos outros 5 que por lá andam.
Esta
é a minha homenagem às mulheres na véspera da celebração do seu dia!



Comentários
Enviar um comentário