Marinheiros de Primeira Viagem.
A propósito de ‘coisa nenhuma’ dei por mim a pensar que em nada
na vida, mas mesmo em rigorosamente nada sou ‘marinheiro de primeira viagem’.
Partindo do princípio obvio que me refiro a tudo o que me poderá acontecer ainda.
Já por lá passei.
Só a morte parece ser a primeira viagem. Será que é? A
primeira viagem? Pois, ninguém sabe!
A mortes e as grandes desgraças serão sempre as primeiras
viagens para qualquer. Também para mim, evidentemente.
Já na vida corrente, tal facto, simplesmente não é verdade.
Pelo menos para mim não parece ser.
Toda a gente na casa dos cinquenta tem por obrigação conhecer
de ginjeira diversos ou mesmos quase todos os normais estados de alma, tendo-se
desdobrado por diversas e por vezes opostas atividades.
Por estas alturas, qualquer cinquentão que se preze, tem obrigatoriamente de ter passado por tudo. Caso contrário será sempre um cinquentão incompleto ou 'inacabado'.
Hoje deu-me p aqui enquanto estava a pôr toda a minha casa em
ordem.
Um dia recebi uma mensagem bastante desagradável no Facebook
de uma senhora drª de Porto de Mós a exigir que lhe devolvesse um livreco que,
nas palavras dela, me teria emprestado há mais de 22 anos. Confesso que fiquei
bastante surpreendido com tal exigência, assim vinda do nada e sem aviso prévio.
Respondi-lhe muito amavelmente que, na altura, pensava que tal gesto se tratava
de uma simpática oferta. Que não. Não tinha sido oferta nenhuma. Confirmei esse
momento com a Sandra que estava presente e também a ela teria parecido de uma
oferta tratar-se.
Recebo, meses depois um pedido escrito de uma forma algo
estranha, atendendo a toda a soberba e grosseria que evidenciava a manifestar a urgência na devolução. Já nem me lembrava desta historieta naquela altura.
Quando vim viver para esta casa só arranjei duas divisões. O
meu quarto e a sala onde repousam todos os livros que pertenceram ao meu
avô António, ao meu pai, à minha mãe, à minha tia Helena Branca e os meus,
naturalmente. Tive de desenhar e mandar construir um móvel para albergar tudo
aquilo.
Não sou capaz de deitar um livro fora ou sequer destruí-lo.
Mas, devem ser mais de 3.000, a avaliar por defeito.
Não me apetece rigorosamente nada andar à procura de um
livrito para enviar a alguém que num serão qualquer e a propósito de nada me ofereceu, para passadas mais de duas décadas o reclamar como se de um
empréstimo se tivesse tratado.
É o que vou fazer agora.
Tantos e tantos livros que por mim passaram e eu por eles, nunca uma
história destas me tinha acontecido.
Nem que já seja manhã clara hei de ter esse livro na mão, para o
enviar para tão infeliz e azeda senhora.
Mas vem tudo isto a propósito de nunca me ter acontecido nada
deste calibre.
Porque de resto, já tudo passou por mim.
Não sou marinheiro de primeira viagem em nada.
Nem nos amores, nem em amizades (grandes ou nem por isso), no mundo associativo, na política, na maçonaria, na paternidade, no património (na sua construção, destruição e preservação), no acesso à justiça, nem nos livros que ajudei a reeditar (e já foram 3), nem escritos por mim (que já foi um), nem em compilações de originais, cujo volume será apresentado com edição da Junta de Freguesia da Vieira, lá para Julho deste ano, após uma pesquisa de mais de quase três anos, nem em desilusões, nem nas mortes dos meus mais próximos, nem em viver na abundância e na quase miséria, nem carregado de dividas, nem com um velho carro de 25 anos a cair, porque não tinha dinheiro para mais, nem em recomeçar o curso que deixei inacabado na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, sei lá mais o quê ... por esta altura, quase tudo é um recomeço. Até a solidão, nada mais é que isso mesmo. Um recomeço.
A vida, tirando o facto de adorar um dia ainda ter um neto ao
colo e outras coisitas que não se dizem porque apenas minhas e dos meus mais
chegados, tem pouco para me surpreender.
Quando estou completamente sozinho como agora, das duas uma:
ou estou a fazer uma coisa que apesar de chata (como lavar a louça ou fazer
limpezas ou ainda procurar livrecos da treta), ou estou em grandes conversas
com os meus cães ou claro na Nazaré deslumbrado e em silêncio a olhar para o
maravilhoso mar da minha mãe.
Tirando estar com os meus meninos, pouco ou rigorosamente nada mais há
de tão pacificador como isso.
Falar com os cães e olhar p o mar. Quando estou completamente
sozinho, como agora é o caso.
Uma coisa é certa, quando nos encontramos sós, há sempre
alguma coisa que me afaga a alma, nem que seja a presença dos meus cães a
dormirem encostados aos meus pés e a fingir que estão a dormir quando lhes faço uma festa nas orelhas.
Há lá alguma coisa mais verdadeira que isto?
Talvez haja, não sei, porque a pureza é o que acabei de descrever.
E nada mais.
Rigorosamente nada mais!



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