Pensar fora da Caixa.

 


O Partido Socialista da Marinha Grande, de vez em quando, nos jantares que promove por ocasião do 25 de Abril, homenageia alguns militantes.

Nos últimos dois ou 3 anos, até se deu ao luxo de homenagear as mesmas pessoas mais do que uma vez. Uma vez por ‘isto’, outra vez ‘por aquilo’.

Na vida pública, cada um faz as figuras que quer. Nada contra, porque, obviamente, cada um é o que é.

De todas as centenas de freguesias existentes no país, a minha freguesia foi a primeira e única a ter uma mulher Presidente da Junta eleita nas primeiras autárquicas.

Os tempos eram tão diferentes dos atuais que em alguns Partidos Políticos, houve necessidade de se criarem secções autónomas compostas exclusivamente por mulheres.

O PS ainda tem essa estrutura, que dá pelo nome pomposo de ‘Mulheres Socialistas’. No século XXI, tal ‘agrupamento’ reveste-se, quanto a mim, de um ridículo sem tamanho. Normalmente serve para reclamar lugares em listas de deputados e muito pouco mais que isso.

Num contexto completamente diferente, um dia a Tereza Coelho explicou-me que na vida há um ‘tempo certo para tudo’. Nas recordações ou homenagens (maiores ou menores) também!

Aquando das celebrações dos 50 anos do 25 de Abril, aparece editado um pequeno opusculo onde o nome da minha tia Helena Branca vem referenciado, como antifascista ativa e participante em diversos comícios da oposição democrática. Houve até um comício no Coimbrão, onde a ‘nota da PIDE’ dizia: “agora até há mulheres a discursar”.

Quando se passa a observar atentamente os atuais tempos políticos, seja a nível nacional, internacional ou local, facilmente nos vamos habituando a deixar de pensar. É que pensar ainda dá algum trabalho e reveste-se sempre (pelo menos assim deveria ser) de alguma coragem, principalmente quando o nosso pensamento vai além das baias, se caracteriza pela dúvida, pela diferença, pela critica, pela procura da virtude e da absoluta transparência.

Por exemplo, acerca do massacre palestiniano, da guerra na Ucrânia, das posições da China, dos EUA e da nossa grande e velha Europa.

Pensar fora da caixa não é para todos.

Aqueles que enfrentam com o seu pensamento o mainstream que nos é imposto deparam-se sempre com o que se torna, porque é, arriscado.

Quando falo do facto da minha tia ter sido a primeira mulher em Portugal a ser eleita Presidente duma Junta de Freguesia, em 1976, não é a pessoa da minha tia a que me refiro, é ao facto de a freguesia da Vieira, se encontrar muito à frente do seu tempo, quando escolheu uma mulher (sem filiação partidária, nessa altura) a presidir a uma velha freguesia, após as primeiras eleições livres.

A Associação Nacional de Freguesias, em 2016 lembrou-se desse facto e homenageou-a de uma forma simples e bastante singela.

É o que acontece a quem tem memória e a sabe cultivar.

Ficou sensibilizada a minha tia, nessa altura.

Vem tudo isto a propósito, da importância de se saber estar ‘fora da caixa’.

A esmagadora maioria de todos nós encontra-se amarrada a grilhetas diversas, que inibem a expressão do seu pensamento e da sua forma de ver o mundo.

A minha tia nunca foi assim. Sempre foi uma mulher livre.

Arriscou a prisão diversas vezes, porque nunca teve uma postura conivente e muda com o execrável regime que se vivia.

O Partido Socialista da Marinha Grande nunca se lembrou dela. Nem no seu funeral apareceu uma rosa que fosse em nome do PSMG e muito menos da Secção  da Vieira, talvez porque, numa,  pontificava o dr. Nélson Araújo e noutra o Joaquim Berranha (duas monumentais aquisições do dr. João Paulo Pedrosa - que igualmente se esqueceu da mulher que assinou, anos antes, a sua proposta de adesão ao PS). Tudo isto é natural... Para alguns, o passado, algum passado, é ou foi transformado em letra morta. Torna-se por vezes mais útil (re)homenagear algumas velhas e ainda influentes figuras em proveito de futuros apoios, do que lembrar alguns mortos sem apoios para oferecer.

É da vida. Não me choca já. Aliás muito poucas circunstâncias me vão chocando hoje em dia.

Sempre procurei dizer o que penso, acerca de temas que julgo merecerem a minha atenção.

Este blog sempre esteve repleto de textos ‘contra’ o mainstream vigente. Sempre.

Nunca me arrependi de ter construído este ‘espaço’ na blogosfera.

Editei um livrito com 61 textos retirados do meu ‘Praça da República, 22’. Felizmente para mim, a escolha dos textos editados coube a outra pessoa e o evento foi incluído nas Comemorações oficiais da Junta de Freguesia da Vieira nos 50 anos do 25 de Abril.

Apesar de convidados pela minha Junta todos os membros do executivo camarário e o Presidente da Assembleia Municipal, ninguém, excetuando a Drª Alexandra Dengucho, justificou cabalmente a sua ausência.

Foi melhor assim.

A ausência total de políticos, incluindo a do Vereador eleito pela Vieira (assoberbado de trabalho sem qualquer sombra de dúvida num Sábado à tarde) compareceram. Desta forma, contribuíram, com a sua total ausência para uma tarde em família, cheia de Amigos que não estiveram presentes por obrigação de funções. Foi muito melhor assim, não restam dúvidas. Mas, foi sintomático.

Vem tudo isto a propósito da coragem de pensar diferente. De escrever tudo ao contrário. A coragem ou talvez loucura da inconveniência.

Há pouco tempo escrevi um texto sobre a Associação para o Desenvolvimento da Praia da Vieira. Escrevi e voltava a escrever.

O meu filho António, homem muito mais ponderado que eu, só me disse assim: “mas o que é que tu ganhaste em comprar esta guerra com o pessoal da praia?”

Eu respondi muito serenamente que não se trata de comprar guerra alguma. Trata-se de ser franco com as opiniões que se têm.

A franqueza sempre nos faz perder, pelo menos aos olhos da turba.

A coragem de dizer o indizível não nos traz qualquer ganho.

Isto é da história. É dos livros. É da vida.

A maioria das pessoas encontra-se cingida por amarras diversas. Ou o emprego na Câmara da filha, ou a nomeação para um cargo público que depende de quem tem momentaneamente algum poder político, ou o emprego no banco do filho, da nora, ou o facto de se ser comerciante e não se poder, porque não se deve, ter qualquer opinião publica definida, porque todos os nossos clientes, são isso mesmo: clientes com diversas e distintas formas de ver o mundo e a sua terra.

Quando fui Presidente da TUMG, o meu velho Amigo Paulo Vicente era administrador em representação do acionista único. Quantas e quantas vezes discordamos. Algumas delas com forte veemência. Pois, ninguém imagina! Nem falo do Presidente Álvaro Pereira, que foi contrariado por mim diversas vezes. Nunca lhe fiz a vontade em bastantes temas, nos quais defendia posições contrárias aos justos interessas da empresa Municipal (pelo menos no meu entender, no do Xico Roldão e do Paulo, evidentemente).

Esta forma de ser nem nos traz amigos nem inimigos. Permite-nos dormir em consciência, o sono dos justos.

Dizer o que se pensa não é fácil e, como diz o povo, “estás a pôr a cara a jeito”.

Fiquei hoje a saber o que há muito desconfiava. Quase toda a gente que discorda do que vou publicando tem e professa a mesma opinião (com a 'valentia' de quem comenta quase tudo nas costas dos visados e nos 'vãos de escada' desta vida), por forma a tentar diminuir a valia maior ou menor do que vou deixando escrito:

"O que o Rui António escreve não é para levar a sério. O gajo é doido. É doente mental. Até toma comprimidos e esteve internado."

Pois é.

Como disse Álvaro de Campos na sua ‘Tabacaria’:

Em todos os manicómios há doidos mais malucos com tantas certezas!

Eu, que não tenho nenhuma certeza, sou mais certo ou menos certo?

Há, como diz a Tereza, “tempos para tudo”.

Infelizmente nestes tempos, há de tudo. Entra-se num Partido ou numa lista partidária para tudo, está-se amarrado a tudo, menos aos valores e aos princípios, porque quase toda essa gente não tem nem valores e muito menos princípios.

E, os outros é que são doidos. Apenas porque dizem o que pensam e porque se estão a marimbar para os interesses mesquinhos, oportunistas e cínicos, que todas as maiorias professam e praticam.

Sempre adorei o Evangelho de S. Mateus, onde a este propósito, vem escrito:

“Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas! Pois que sois semelhantes aos sepulcros caiados, que por fora realmente parecem formosos, mas por dentro estão cheios de ossos de mortos e de toda a imundícia. Assim, também vós exteriormente pareceis justos aos homens, mas interiormente estais cheios de hipocrisia e iniquidade.”

Quando se está agarrado seja aos interesses, às prebendas, às nomeações, à breve vaidade hipócrita e ao provincianismo de todas as formas de pensamento mesquinhas e 'sem mundo', está-se bem longe dos valores, dos princípios e de todos os horizontes da esperança, porque valores e princípios é coisa que deixou há muito de existir e com isso, restam condicionadas todas as escolhas, pensamentos e atitudes.

Vivem-se tempos de merda. É o que é!

E poucos dizem isto.

Talvez porque seja óbvio. E, por vezes, o óbvio não acrescenta nada. Aos olhos da turba e daqueles de quem dependemos.

É também, talvez por isso, que o 'Chega' tenha conseguido recolher mais de um milhão de votos, porque as cúpulas dos partidos democráticos deixaram, há muito, de se dar ao respeito.

Esta é a era de todos os perigosos populismos. E da ascensão da mediocridade.

No PS da Marinha Grande, basta olhar para a realidade vigente e para aquele que de dentro o pretende destruir! Aliado a todas as espécies de ressabiamentos. Até de inimigos antigos e figadais que agora se unem com o mesmo objetivo. Destruir tudo o que à sua volta se encontra. A mediocridade e o ódio antigo uniram-se no PS da Marinha Grande.

Quando olho para certas e muitas mulheres socialistas do atual PSMG e me lembro da absoluta lealdade aos princípios e valores socialistas da minha tia Helena Branca e da Fernanda Pinto, por exemplo, de entre tantos e tantos outros sublimes exemplos e as comparo com as Fabianas, as Cristinas Simões e todas as Anas Baridó desta vida, fico triste.

Tudo isto me entristece sobremaneira e fortalece a velha ideia de que cada povo tem o governo que merece.

A Marinha Grande não é exceção!

Quanto aos vira-latas que pelo PSMG proliferam agora, um dia falarei de todos eles. Todos, sem exceção! Um por um.

A começar pelo duas caras do dr. Toscano, que nunca passará, pelos vistos, de um vulgar cobarde deslumbrado. Que às 14 horas é branco e às 21 é preto. Sem ter passado sequer pelo cinzento. É conforme a plateia presente. Gosta de agradar a todas as momentâneas maiorias. É, com toda a certeza, apenas uma questão de feitio. Nada mais que isso. 

Coisa pouca!

São, como diz o povo, "feitios". 

Cada um tem o seu. Como é evidente!




 


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