O aparente ‘conformismo’ dos outros.
Muitas vezes ouvimos nós esta frase da minha mãe. Olhávamos
sempre um para o outro com um misto de orgulho e cumplicidade. De facto, éramos
parecidos em muita coisa. Eu e a minha tia. Nos defeitos então, nem vale a pena
falar.
Já nos últimos anos, a minha tia lia apenas o Diário de
Notícias e alguns artigos do Público e do Expresso.
Odiava a imagem de algumas clientes do Café, conhecidas dela, que ‘devoravam’
diariamente as páginas do Correio da Manhã. “Burras. São umas "Burras
reacionárias”. Era desta forma carinhosa que as procurava classificar.
Eu e a minha tia tínhamos muitos ‘rituais’ que, cumpre dizer,
nos habituamos a ter e a saber ir mantendo pelo tempo. Adorávamos isso.
“Já leste o artigo do Abelaira?”, “leste a visão do António
Barreto no Público de hoje?”, “A crónica do Miguel Sousa Tavares está muito bem
escrita, mas não gosto nada dele. É arrogante como o pai”.
Como tinha mais tempo que eu, tinha lido tudo primeiro.
Quantas e quantas foram as vezes em que só fui ler alguns textos desses para
depois a confrontar com uma opinião contrária. Apenas pelo prazer no confronto.
Agora, só o Alfredo João e, por vezes, o Rui Portugal me
enviam ‘coisas’ boas para ler.
Tenho saudades da minha tia, quando acabo de ler um qualquer
texto e me pergunto “o que pensaria ela agora acerca disto?”.
Sempre adorei gente. Principalmente gente com opinião.
Alicerçada. Justificada. Sólida.
Talvez seja por isso também que mantenho há muitos anos uma cumplicidade com o doido do meu primo Alfredo João. Tal como eu, é capaz de pensar e defender o mesmo e passado algum tempo, o seu contrário. Gosto muito de gente assim. Sabem crescer com a contradição, porque têm abertura de ir ouvindo e lendo os outros. Não se trata de gente troca tintas, nada disso. Resume-se a ser gente com mente aberta e por isso com capacidade de evolução no seu pensamento e na sua forma de pensar e avaliar a vida.
Vem tudo isto a propósito do último texto que escrevi acerca
da ADPV. Esse texto como tantos e tantos outros que já escrevi, escusava perfeitamente de ter sido escrito. Simplesmente porque não adiantou rigorosamente nada. Trouxe-me, talvez mais antipatias. Apenas isso. Nada mais.
Nunca acreditei nos ‘educadores do povo’. Nunca dei para
esses peditórios. No entanto, julgo um superior dever, ter opinião e
manifestá-la. Livre e justificadamente. Se a recolhemos apenas para nós mesmos,
nunca poderemos contribuir para uma discussão, uma troca saudável de ideias ou
até um confronto útil de posições diversas ou até mesmo antagónicas. Só na
diferença se cresce. Nunca no seguidismo acéfalo e acrítico. Nesses ambientes
reside a manada. Tirando na pecuária, detesto manadas.
Existe uma outra respeitável forma de ir vivendo os dias que
passam, que é ler, ver, observar, construir uma opinião e permanecer com ela.
Discretamente. 'Educada forma de se estar'. Isso é certo. Não permite nem o conflito, nem
o confronto. Mas 'está-se bem."
Até o meu pai que era um tipo reservado teve uma opinião, que sempre foi publica, acerca do regime político anterior ao 25 de Abril.
As redes sociais permitem muita coisa. Mais as más que as boas
é certo. No que concerne a temas e opiniões ‘acerca de’, permitem apresentá-las
e defendê-las e crescer depois com as leituras das opiniões alheias.
Por isso escrevo. Às vezes sobre temas delicados ou até
aparentemente superficiais. Dá-me prazer, suaviza-me a consciência de, pelo
menos, poder sentir que contribuí para que se pensasse algo sobre 'algo
incómodo'. Incómodo, porque, normalmente intocável, tabu ou até, valha-me Deus, herético.
Um dia, há alguns anos, ainda este blog não existia escrevi um comentário qualquer sobre o estado do PS no tempo do inefável Nélson Araújo. Onde estava tanta e tanta gente do PSMG nessa altura?
A começar pela atual líder da Concelhia, Fátima Cardoso e a acabar na líder da bancada da Assembleia Municipal, Claúdia Fabiana Perfeito? Sabujas, lacaias ou simplesmente, distraídas? A última hipótese, estou certo. No PSMG, há sempre muita gente distraída. Temporariamente apenas. Quando convém. Claro! É que sempre foi difícil ter as opiniões corretas, nos tempos e nos lugares certos.
Lacaias não, certamente. Apenas seguidistas de quem, momentaneamente, tem algum poder.
Nessa altura e em conversa num jantar, um amigo disse apenas: “Meteste-te com um vespeiro”.
Continuo até hoje a gostar daquele(a)s que se julgam vespas e
habitam em ditos 'vespeiros'.
Não sei bem porquê.
A falta de comentários a tudo o que vou escrevendo, ajudam
pouco a manter o espírito critico. Mas lá está, cada um é como é.
Eu sou assim e não há rigorosamente nada que se possa fazer.



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