João, o Sindicalista.
Tenho vivido com o João durante os últimos 2 meses. Há anos
que isto tem acontecido. Vem p cá e deixa-se ficar. Diz, na sua ingenuidade,
que deseja ficar a viver na Vieira. Aprendi, a custo, deixar de responder ou
mesmo perguntar o que seja, quando ouço disparates. Os anos que levei para
atingir este ‘estádio’. Ficar calado de cada vez que me deparo com opiniões,
enfim, pouco refletidas.
O problema é que o António partilha desta ‘visão’. De querer
ficar por cá. Acabou a licenciatura em arquitetura na Faculdade de Arquitetura
da Universidade de Lisboa. E com uma média do caraças. Fartou-se de trabalhar
durante 3 anos. Agora vai para o Mestrado Integrado. 4 semestres, um dos quais
na Faculdade de Arquitetura de São Paulo.
Para ele é bom. Academicamente falando, claro está.
Para mim tb, porque o irei visitar. Duas semanas na Bahia e dois ou 3 jantares com o meu puto em São Paulo. De facto, foi mesmo boa para mim esta opção do Tóino pelo Brasil.
Todos os meus filhos trabalham em todos os verões. Sempre
trabalharam, sem que ninguém lhes tenha dito ou sugerido essa opção.
Tirando o João, que como tem veia de sindicalista, quando se
sente injustiçado ou explorado, como aconteceu este ano, despede-se amavelmente
e chega a casa com este tipo de conclusões: “tou cheio de dinheiro. Já ganhei
mais que o ano passado. Agora é praia com os meus amigos. Estou farto do
patrão. É malcriado, injusto e tal, um histérico sempre a ralhar com toda a gente, não paga as horas extraordinárias. Olha despedi-me. …, mas tou rico”.
Depois diz-me que se preocupa com o ano que vem, porque é o
último como estudante e terá posteriormente de arranjar um bom estágio profissional. Para
aprender. Aprender sempre. Tudo o que pensa ir fazer-lhe falta.
O Manel, continua a receber gorjetas milionárias na Quinta do
Lago. Entrou no Mestrado que queria no Porto.
Tenho os meus putos todos encaminhadinhos. É verdade.
Orgulho-me disso.
Orgulho-me mais ainda por serem (pelo menos parecem ser)
pessoas com os valores certos.
Tudo isto para dizer que passei uns dias inesquecíveis com
eles na ‘Pensão Estrelinha’, que é como passei a chamar ao nosso cantinho na
Nazaré.
Tive direito a 5 chaves. Já emprestei 4. Distribuí-as pelas pessoas
que mais gosto. Agora, de cada vez que quero lá ir, tenho de fazer 4
telefonemas, para confirmar que a "Pensão Estrelinha" está disponível para mim.
Adoro estas coisas.
Sinceramente. Partilhar o melhor que temos com os nossos
incondicionais é das melhores coisas que temos na nossa vida …
Mas, face à taxa de ocupação, tenho ficado na Vieira com o
João.
Para fazer limpezas, arrumações e tantas e tantas outras coisas acabadas em ‘ões’, como por exemplo, ‘diversas complicações’ (com os cães, por exemplo).
Não tenho podido contar muito com o rapaz porque tem passado
as noites a ralhar com os amigos que ‘jogam à bola’ com ele no computador. E,
deita-se tarde e ainda se levanta mais tarde.
Hoje, estive a cozinhar todas as nossas refeições até ao
final da semana que vem. Acabei agora. Ementas do melhor.
Se o gajo não se levantar a horas decentes para almoçar e recomeçar
a participar nas limpezas, não sei muito bem qual irá ser o seu destino
imediato. Não sei, mas não passará por esta casa, que apesar de estar muito velha, ele adora.
Almoço de amanhã:
Salsichas frescas enroladas em couve lombarda com puré de
batata.
Uma pergunta:
Quem é que sabe resistir a uma maravilha destas?
Pois. Não sei!
Para a semana, lá vai ele para Leiria sem sequer imaginar o enorme
vazio que deixa no meu coração e nesta nossa Casa mágica que apesar de se
encontrar a cair de podre, também vai ter imensas saudades do nosso “sindicalista” da treta.



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