Obrigado Biblioteca.

 


…/…

Distinção esta, …

que enquanto por cá andei, nunca tive ‘tempo’,

de procurar, imaginar … ou sequer, … supor, alguma vez, me fosse conferida.

Para nós Raúl, foi um tempo muito rápido, …, apesar de longo.

Longo, como uma vida breve de vinte anos consecutivos!

Ninguém naquela sala, salvo o Raúl certamente, poderá avaliar o que para mim e para ele significou aquele momento.

De profundo agradecimento, porque também de absoluta dádiva e, …, de completa entrega àquela Casa, … agora com 90 anos.

Foi ‘apenas’ isso que fizemos.

Eu e ele. E tantos outros que connosco estiveram nesses tempos.

Entregámo-nos à Biblioteca de uma forma,

‘Inteira e Limpa’,

como no poema de Sophia.

É exatamente por isso, que a BIP …

nada … nos deve.

Por estranho que, à primeira vista, possa parecer,

somos nós, eu e o meu querido Raúl, que, … afinal de contas, tudo devemos a esta antiga Casa de nove décadas.

Por lá aprendemos a ser gente.

Por lá tropeçamos igualmente em dificuldades … e … tantas foram.

Por lá, passámos os momentos mais difíceis que cada um de vós, … possa sequer, … tentar … imaginar.

Mas, também por lá … foi o espaço e o tempo em que fomos mais felizes.

Porque realizamos …

todos os sonhos do mundo.

Bem vistas as coisas Raúl, eu e tu é que devíamos estar agora a entregar uma distinção qualquer à nossa Biblioteca.

Porque tudo isto está ao contrário.

Também é essa uma das constâncias da vida:

Tudo … estar, … quase sempre, … ao contrário!

Quem deve a esta Casa, somos nós, que a servimos, e, no caso do Raúl, que ainda a serve.

Esta Associação fez de nós pessoas melhores.

Transformou-nos ainda não sei bem no quê, porque nos foi deixando sempre uma pequena fagulha de esperança:

Nos homens, … Na vida e … Na certeza dos horizontes.

Que existem … e, só estão à nossa espera.

Alcançámos tantos, … mas tantos.

‘Impossíveis’, alguns,

Difíceis … quase todos!

Há alguns anos, depois de entregar a chave das portas desta Casa, não me permiti deixar envolver nunca mais com as coisas da BIP. Passou a ser, para mim, muito penoso, voltar a entrar naquele edifício. Simplesmente porque me lembrava de tudo. E nunca foi da alegria dos melhores momentos que ‘aparecia’ de cada vez que lá voltava. Eram sempre as piores memórias, as maiores angústias e algumas, tantas, incompreensões, que me voltavam sempre a ‘perseguir’, quando cruzava a porta da frente.   

Decidi deixar de lá voltar.

E durou anos, todo esse processo.

De ausência. … ! Absoluta!

“Nunca tornes a um lugar onde foste muito feliz”.

…/…

Um dia, numa conversa banal, como todas ou quase todas as conversas são, desabafei com o Quim Gouveia que, entre tantas outras coisas, tinha a certeza de que algumas tarefas, quase obrigatórias teriam ficado pelo caminho.

A reedição do volume 2 do Zé Botas era uma delas.

Para meu enorme espanto, passado, algum tempo, a Direção da BIP apresenta-me como desafio, tudo fazer para concluir o ciclo da Coletânea de Contos do José Loureiro Botas, ainda durante este ano de 2022, por ser o ano em que o autor faria o seu centésimo vigésimo aniversário.

Deram-me “carta branca” para desenvolver esta tarefa.

Devo por isso, um particular e enorme agradecimento a esta Direção pelo facto de me terem oferecido de bandeja, este presente. E por, naturalmente, terem confiado em mim para o realizar.

Fizeram com que me sentisse útil, novamente.

Empenhado numa tarefa que me ultrapassava.

Estaria eu, … agora, … à altura deste desafio, que há vinte anos teria sido apenas mais um?...

Quando iniciei esta minha “tarefa delegada” ou encomenda, para utilizar uma linguagem mais simples, tal como sempre me aconteceu nestas coisas, quis que ficássemos rodeados pelos melhores para desenvolver este projeto.

E, ficamos!

Pela arquiteta Nídia Nair Marques, na transcrição e revisão dos textos, pela minha querida Vivilde, que ‘emprestou’ esta obra para a Capa do livro que, curiosamente, para muitos dos seus amigos, é um pôr do sol magnífico. Já para mim, mais não é que uma fotografia ‘retirada’ do mar para a praia velha dos anos 40 e 50. Daí a sua negritude, plena de cinzentos e sombras, tal como os tempos brutalmente difíceis que se viveram na praia da Vieira em todos os contos aqui retratados pela pena de um dos nossos maiores neorrealistas de sempre.

E, contamos ainda com a indispensável e poderosíssima presença nesta edição, do nosso queridíssimo conterrâneo, Maestro Paulo Lameiro, que, como ninguém, soube descrever esta obra e aqueles tempos, com um orgulho tão genuíno como, só ele próprio, seria capaz de ‘transmitir’. Arrisco-me a dizer que nunca conheci, nem conhecerei ninguém cujas origens o elevam e orgulham de forma tão grande e verdadeira.

O Paulo, para além de ser um dos nossos melhores de sempre, representa o que de melhor fomos, somos e seremos. Em termos de dignidade, honradez, inteligência e humildade revestidos de uma enorme sensibilidade que nos esmaga a todos.

Um homem em paz com as suas origens, orgulhoso de forma absoluta, de todas as suas memórias maiores com o seu avô ‘Zé Bacalhau’, … figura icónica da nossa praia, nos tempos que este livro retrata.

Infelizmente, todos sabemos, que muito poucas são as pessoas que têm, são e representam tão genuinamente um profundo e descomplexado orgulho em serem quem são, porque vieram das mais profundas dificuldades que a vida, por vezes nos apresenta. A nós, … ou, como é o caso, aos nossos.

Pobreza, misturada com alegria e com esperança, todas em doses iguais.

… Obrigado Paulo!

Foi um enorme privilégio teres-me feito ‘sofrer’ como fizeste.

Desesperar à espera do teu conto, trocar mensagens contigo às cinco da manhã. E, continuar a esperar, até ao desespero, e, … quando recebo o teu prefácio que tive de ler duas vezes, porque era verdadeiro demais para ser processado numa só leitura … e, me conseguiu comover às lágrimas, de tão belo, tão autêntico e arriscar-me-ia mesmo a dizer, superior a todos os contos do Zé Botas, porque é uma enorme, comovente e cruel história que atravessou a tua família mais próxima, há mais de 70 anos.

…/…

Belo e enorme contributo ofereceu a toda a gente que com o Paulo priva, sonha e constrói.

…/…

Ser Sócio Honorário da Biblioteca de Instrução Popular, como todos deverão saber, concede-nos “enormes” privilégios.

Dentro desse contexto, permitam-me que deixe aqui um pedido publico, completamente fora do ‘protocolo’ e dos estatutos da nossa Associação, e, considerando também que nunca fui muito respeitador de regras estabelecidas, torno aqui e agora o meu desejo de que para o ano, na celebração do nonagésimo primeiro aniversário da BIP, me seja concedida a honra de entregar em mão, o diploma ao mais novo Sócio Honorário da nossa Biblioteca.

Àquele miúdo que, tal como me fez há 51 anos, quando me esperou à porta do Jardim Infantil no meu primeiro dia, para me levar pela mão e, com isso, conseguisse que eu parasse de chorar para depois começarmos a brincar com um brinquedo qualquer…

Foi também o mesmo “miúdo” de sempre, passados vinte e poucos anos desse episódio, que esperou por mim à porta da BIP, para me tornar presidente desta grande Casa.

Refiro-me ao Dr. Rui Rodrigues, como todos já devem ter entendido, que por cá ainda anda, assim como por 90% das Associações da Vieira que trás às costas, como presidente da Mesa da Assembleia Geral, resolvendo graciosamente todos e são sempre imensos, os problemas jurídicos com que cada Coletividade se depara constantemente.

Peço desculpa, mas, na minha modesta opinião, deverá ser ele o próximo Sócio Honorário da Biblioteca de Instrução Popular.

Obrigado Rui, por tudo o que tens feito por nós, há exatamente 30 anos consecutivos!

Não tens sido apenas um excelente presidente da Mesa da Assembleia Geral da BIP.

Sempre foste muito mais que isso!

És muito mais que isso!

Todos o sabemos. Todos o deveríamos reconhecer publicamente.

Chegou a hora de o demonstrarmos, penso eu. Assim pense a Direção e os sócios reunidos em Assembleia Geral, evidentemente.

Quanto a mim, resta-me apenas agradecer aquela que para mim será para sempre a maior honra que alguma vez esta casa me poderia conferir. Ser Sócio Honorário daquela casa a quem dei tudo de mim.

E, caso não tivesse sido o Raúl Miranda Parreira, nunca, por nunca ser, me seria concedida tal distinção.

Obrigado à Direção que me propôs e a todos os sócios que votaram unanimemente em nós.

Abraço meu muito querido e velho Amigo Raúl Taranta.

És e serás sempre um dos meus pouquíssimos e melhores Amigos de toda uma vida. Obrigado por ter podido sempre contar contigo.

Abraço.




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