Teodósios.

 


Hoje, primeiro domingo de setembro, foi um dia feliz.

Em famílias grandes, coisa frequente há 70 anos, porque famílias de imensos irmãos, costuma existir uma inexplicável relação privilegiada entre um grupo em claro detrimento de outros.

Por vezes, como é o caso, sem qualquer razão aparente ou até mesmo justificada.

Gostamos mais de uns que de outros e isso prolonga-se por uma, duas, três, quatro gerações.

A família da minha mãe era bastante grande, seis irmãos a compunham. Nunca ou quase nunca, para ser totalmente verdadeiro, perdi muito tempo com esses tios e primos. Havia uma ou duas enormes exceções. A minha prima Lena e o meu primo Zé. Sendo que a Lena preencheu sempre todos os afetos que eu deveria ter distribuído por todas as dezenas de primos nossos. Nunca fui capaz de o fazer ou sentir. Foram sempre todos ou quase todos os afetos para ela. E, sempre nos demos mal. Talvez por termos sido amados demais pela mesma mulher, a minha mãe que nunca fez questão de amar com um mínimo de diferença qualquer um de nós os dois. Para ela, sempre fomos os seus ‘dois’ filhos’, com 16 anos de diferença. O que ela nunca contou é que tivéssemos sido tão idênticos na forma de vivermos e nos relacionarmos. Penso, por vezes, que se tivéssemos sido verdadeiramente irmãos nunca seríamos tão parecidos. Tanto nas exageradas e parvas virtudes como nos arrebatamentos de todas as discussões enormes que sempre tivemos.

Partiu há pouco. Foi embora depressa demais, como um dia por aqui deixei registo. Deixou-me de rastos. Por vezes dou por mim a pensar que nunca poderia supor que me deixaria daquela forma, quando partisse antes de mim.

Da família do meu pai, todos eram da Vieira, só que quase todos os sobrinhos e irmãos da minha avó foram para Sintra. Havia, da minha parte uma grande cerimónia para com as minhas tias-avós e os meus tios avôs, primos, filhos de primos, etc. Mas sempre nos demos extraordinariamente bem com todos eles. Os meus bisavós negociavam juntos, porque ambos eram madeireiros.

Até encontrei, há bem pouco, algumas faturas de um para o outro. Confesso que achei piada.

Mas, a minha família a sério, foi sempre a família do meu pai. Os Teodósios.

Não todos, porque também eram imensos. Apenas alguns. A enorme piada nestas coisas, é que os laços mais fortes entre os poucos irmãos que se amavam incondicionalmente foi, com o tempo, passando, de geração para geração.

Hoje foi um desses dias.

Apenas ‘por dá cá aquela palha’, demos por nós a almoçar num domingo cheio de sol por todos os lados, à volta da mesma mesa e com a intensidade da nossa amizade ou amor, sei lá, intactos! Alguns não se viam há mais de um ano, outros nem por isso.

Estávamos juntos. E, simplesmente adoramos isso.

Se hoje tivesse sido sábado, ainda agora por lá estaríamos à volta da mesma mesa a conversar, continuando, como fazem os amigos, a última conversa desde o último dia em que estivemos juntos.

Para uma família tão grande, até somos poucos.

Somos netos de três irmãos.

O meu avô António, a minha tia Maria e o meu tio Zé. Nós os 6 somos, mais ou menos das mesmas idades, os nossos 9 filhos também. E, as histórias que lhes contamos de tão engraçadas porque inverosímeis aos nossos dias, são quase todas fabulosas.

Antes de me despedir, já estava com saudades deles todos, porque os adoro, porque sei que são meus amigos incondicionais e porque são momentos tão íntimos como bastante espaçados no tempo. Cada um tem a sua vida. Cada um vive na sua terra. Nunca nos esquecemos uns dos outros, isso é certo, só que, penso que todos concordamos, temos, nesta espécie de vida que todos vivemos de nos encontrar muito mais vezes.

Grande domingo para todos nós, sem qualquer dúvida.

Quando de manhã perguntei ao João se lhe apetecia vir a Pombal, só me respondeu: “ir ter com a minha madrinha? Claro que me apetece, só tenho é saudades da outra casa que ela tinha onde fomos tão felizes com o escorrega de água”.

A Dulce é Madrinha do meu mais novo, ainda ele estava na barriga da mãe, quando a convidei, a minha tia Helena Branca foi Madrinha da irmã da Dulce e o meu pai foi afilhado da avó delas (a minha tia Maria). Nenhuma geração combinou com ninguém, mas somos padrinhos e madrinhas uns dos outros há pelo menos 100 anos.

Estas são as cumplicidades, aparentemente inexplicáveis, mas que caracterizam gerações e gerações de famílias que se gostam muito.

Domingo perfeito. Ainda por cima com o meu primo Joaquim António do Porto e a minha prima São de Peniche.

Dificilmente poderia ter sido melhor!

Desde que o meu pai morreu é para lá que fujo. Há 20 anos. Só para não ter de ficar nessa noite e no dia seguinte na minha casa.

Pensava que estava pronto para parar de fazer isso este ano, mas sinceramente não me parece. O calor daquela gente, naquela noite, ultrapassa quase tudo o que posso desejar. É para aí que fujo. Há 20 anos que o faço.

Pelo que tudo indica, é isso que continuarei a fazer, até ter a minha casa pronta, para vos receber a todos.


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