Maria Fernanda Teodósio.
Quando tinha 14 anos, no final do 9º, tive, tal como todos os
meus colegas, de escolher. Ou letras ou ciências. Era um aluno notável, mas
foi-me fácil a decisão.
Letras.
Queria ser professor de História e nada mais que isso.
A minha decisão dececionou os meus pais. De tal forma que a
minha encarregada de educação teve de conversar com a diretora de turma que não
era nem mais nem menos que a minha professora de História desde o sétimo ano. A
minha querida stôra Clara Martinho, da Figueira da Foz, como tantos e tantos
outros profs da Escola da Vieira que ainda funcionava nas salas da Igreja
Matriz, onde o ensino secundário terminava no 9º.
Foi a conversa mais absurda a que assisti e determinou
completamente todo o meu futuro.
A minha mãe, professora do ensino primário extremamente
exigente com a competência e resultados dos seus alunos que sempre amou muito
para além do razoável que a sua missão de ensinar impunha, tentou conseguir uma
aliada que me convencesse da estupidez da minha decisão.
Eu parecia um simples réu num julgamento, com um advogado contra
e um procurador também contra mim. Ninguém foi sensível aos meus argumentos.
A reunião termina com esta frase que nunca esquecerei:
“mas tu já viste Rui, se fores para História vais ser igual a
mim?”
A nada respondi. Não valia a pena. Tinha de ser um dr. a
sério e não um simplório professor, como a minha mãe sempre foi e a minha
querida stôra Clara Martinho também era.
Fui para a Domingos Sequeira e depois para o ISEG.
Se hoje lembro este facto, é porque nunca ensinei nada a
rigorosamente ninguém. Nem com conhecimentos, nem com exemplos, nem com coisa
nenhuma.
Ontem estive a conversar à noite com o António entre dois
copos de branco fresquinho e alguns cigarros na nossa varanda. Muito gosto eu
de ficar assim.
Tenho as minhas opiniões, que são públicas, quase todas. Não
me escondo em nomes nem em posturas. Toda a gente sabe quais são e têm sido.
Não vivo de nostalgias, nem de lições de soberba e autoridade hipócrita.
Não dou ordens nem à turba e muito menos às elites.
Sei que ontem decorreu um debate extremamente interessante e
muito bem-apresentado pelo Alfredo João.
Como já o manifestei, foi uma bela ideia que esta Junta teve
e promoveu.
Ficámos, hoje, tanto eu como o meu filho, surpreendidos
quando soubemos, por acaso, que nos teriam chamado para receber um simples e
justo objeto em memória da minha tia Helena Branca, cuja memória, mais uma vez
foi relembrada na Sessão Solene que decorreu hoje.
O meu filho mais novo bem que poderia ter estado presente se o tivéssemos sabido devida e competentemente. Tal não aconteceu. É que o João estava em Leiria, disponível e orgulhoso teria ficado. Muito tranquilos ficámos ao saber que nos será enviado o 'adereço' evocativo da solenidade de hoje.
Afinal, só passou exatamente um ano, quando organizei, apresentei e prefaciei, após 3 anos de pesquisa, o livro 'Vieira do Liz - Poemas, Rimas e Versos'. Cenas da vida, do tempo 'curto' que vai passando pelas coisas, pelas pessoas e, claro por quem, pelos vistos, afronta os outros com diferente opinião. Coisas da treta e de breves faltas de memória. E respeito, já agora.
... / ...
Mas, se recordo a importância da memória e dos momentos
solenes que a procuram dignificar, lembro outro nome, tantos e tantos anos
esquecido na terra que sempre terá o meu coração e um dia os meus ossos.
Refiro-me à Vieira evidentemente. A que outra terra me poderia referir?
Só quem não me conhece minimamente poderá pensar ou por isto
ou aquilo, que alguma vez deixarei de amar profundamente o meu berço e a minha
mortalha.
Só quem não me conhece! Ou pretende não fazer por conhecer,
como certos imbecis de breve circunstância.
…
O dia de hoje teve uma responsável.
Outra mulher.
Uma força da natureza e uma visionária.
Maria Fernanda Teodósio!
Se a Vieira hoje celebra 41 anos após ter deixado de ser uma
aldeia, meio esquecida, ao seu enorme trabalho o deve. A essa Mulher e a mais
ninguém.
Tenho imensas saudades suas D. Fernanda. Saudade que é um
sentimento que sempre percorre os homens de coração puro e talvez, poucas ou
nenhumas virtudes. Tal como eu.
Oxalá nos 42 anos possamos contar todos com a sua
participação.
Obrigado.
Não estou a ensinar história a ninguém, porque como disse,
não sou professor.
Tenho memória e respeito. Por quem o merece.
Apenas isso.
Chega-me bem.

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