João Ledo.

 


A vida surpreende-nos diariamente. Mesmo numa calamidade atmosférica. Até numa enorme desgraça aprendemos sempre muito.

Provavelmente ninguém deseja ‘crescer’ desta forma, só que faz parte de nós e dos nossos inevitáveis e únicos percursos.

“É a vida!”, como dizia o outro.

A Vieira, a sua praia, a cidade da Marinha Grande, a freguesia da Moita e todo o concelho de Leiria viveram e vivem, talvez, a maior devastação que a natureza foi capaz de lhes infligir.

Em poucas horas.

Ficamos nós e a completa desolação à nossa volta.

Primeiro atónitos, depois revoltados e por fim, de mangas arregaçadas a agarrarmo-nos uns aos outros num esforço comum na tentativa da sua reconstrução.

Quando tudo corre bem, já aqui o deixei escrito, muita gente temos sempre por perto. Já quando as circunstâncias são as inversas, conhecemos, com profunda dor e amargura, aqueles com quem contamos. E são sempre muito poucos.

Vivi, como todos nós, a surpresa absoluta com algumas pessoas que nem conhecia sequer, numa manifesta e desinteressada solidariedade totalmente inesquecível. Assim como vivi e acima de tudo senti, velhos e enormes amigos a fecharem-se dentro de si próprios e da sua absoluta indiferença e egoísmo, borrifando-se para os meus problemas e vicissitudes várias, quando nada lhes custaria terem-me, simplesmente, estendido a mão.

Faz parte da condição humana dirão alguns.

Ou os mais velhos ou os mais vividos ou simplesmente os mais sábios.

A minha velha casa com quem sempre mantive uma profunda relação, como se de uma pessoa se tratasse, encontra-se profundamente destroçada por dentro e por fora.

De morte.

4/5 do telhado voou. Foi um cenário de inundação absoluta o que se verificou e verifica dentro das suas velhas paredes, forros, chão e teto. Chove como na rua em todas as suas divisões, já totalmente desertas.

No R/C, existe o histórico Café Liz, outrora um exemplo de dignidade e competência, desde 1919.

Os tempos mudam, como sempre mudaram quando as pessoas foram ou passaram a ser outras.

Foi-se mantendo aberto depois do furacão até quinta-feira passada, com um gerador rudimentar. Onde chovia como na rua, apesar dos esforços que tenho feito, eu e os meus filhos, para minorar todos os estragos da chuva e do vento.

Todas as suas estruturas são de madeira que têm 170 anos. 50 de pinhal e 121 anos de construção. Estão gastas, cansadas e extremamente perigosas, mas o atual proprietário do café, manteve as suas portas abertas desde o dia 29 e desta forma pôde vender diariamente 150 cafés de saco, 50 sandes, 70 raspadinhas, grades de minis e tabaco, pondo em risco a integridade física de todos os seus clientes, que se sentavam agradavelmente às suas mesas.

Acionei o seguro no primeiro dia em que tal foi possível.

Solicitei, já em desespero de causa, o seu encerramento temporário.

A Helena diz algumas vezes que eu carrego profundas mágoas comigo. É natural que o diga. Conhece-me como quase ninguém. Talvez tenha razão.

A do histórico Café Liz é uma das mais profundas, desde há quase trinta anos.

Enfim. Mágoas e memórias. Mas isso é outra conversa.

Hoje os meus cães fugiram.

Houve alguém que deixou o portão aberto. Acontece. Estão na rua todos eles. Voltarão, como sempre voltam. Mas, apesar de rafeiros, nunca morderam ninguém.

Ladram aos gatos.

O normal. Apenas isso.

Têm princípios e dignidade. Coisas de cães. De raça indefinida, como se diz agora.

São cães. Como eu.

Semelhança substantiva.

É, também por isso que os amo.

Não fazem mal a ninguém, são carinhosos comigo, são boa gente.

Limitam-se a ladrar aos gatos pardos, tal como eu faço aos gatos pardos desta vida. São eternas aversões entre raças. Apenas isso.

O normal, portanto.

A melhor marisqueira da praia da Vieira é a do meu enorme Amigo João Ledo.

Ficou totalmente destruída. Sem telhado, sem esplanadas, sem montras, protegidas depois por colchões.

Um cenário desolador.

Ontem vi uma publicação simples e até comovente do João.

Após ter refeito todo o telhado com telhas novas, sobraram-lhe bastantes.

Tirou uma foto e ofereceu-as a quem delas necessitasse.

Estes gestos têm um valor bastante superior ao valor material das coisas.

Revelam, acima de tudo, um coração enorme de quem vive e sente sem pensar apenas em si próprio e nos seus legítimos interesses.

Grande Abraço João.

Fizeste-me lembrar a parábola da viúva pobre do Novo Testamento, que deu tudo o que tinha, numa oferta no Templo de Salomão. Mesmo ao seu lado, um judeu rico e exibicionista oferecia a Deus o que nunca e nenhuma falta lhe fez.

Obrigado pá.

Não pelas telhas, que não pedi, porque não me faziam falta.

Apenas pelo exemplo.

Que dignidade!

Que viva a praia da Vieira e as suas gentes.

Sempre!

E para sempre.

Irá renascer mais depressa do que todos poderão supor.

Abraço enorme, grande João.

Correram-me as lágrimas com a tua publicação, se queres saber. Em silêncio e sozinho, como todas as lágrimas devem correr.

Mas também, com quase 60, já choro com facilidade.

Coisa que nunca antes me tinha acontecido. 

Obrigado também por isso.


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