A Casa da Minha Vida.
Na primeira década do século passado na Vieira, as casas
consideradas à época de grandes dimensões, eram poucas. Muito poucas.
Talvez umas cinco.
A minha, a casa onde hoje existe a Loja da Maria Mimi no
Largo da República, a casa do Senhor Dâmaso Luiz dos Santos (hoje em ruínas), a
sede do Jardim dos Pequeninos e a Farmácia. Existia ainda a Escola do Professor
Correia Roseiro, mais tarde chamada Singer, onde agora se encontra o lar de
idosos.
De resto a esmagadora maioria das habitações eram de pequena
para não dizer de minúsculas dimensões (tipo uma porta e duas janelas com uma
chaminé) e algumas (poucas) habitações de dimensões médias com primeiro andar para
habitação e comércio no r/c.
Era assim a Vieira, na primeira década do século XX.
Há muitos anos que a casa onde praticamente nasci e sempre
vivi atravessa problemas vários, normais pelos anos, pelas diversas obras e
pela antiguidade.
Deixei-a, com enorme sofrimento de nela acordar e adormecer
todos os dias.
Já não reunia condições para continuar dentro das suas
paredes e mudei para um apartamento. Fiquei seu vizinho. Nunca a abandonaria.
Foi um processo demasiado sofrido, como já por aqui o deixei
expresso por mais que uma vez.
Construí, inexplicavelmente, uma relação mágica com aquele
espaço, como se de uma pessoa se tratasse.
Coisa bastante estranha, talvez até incompreensível para a
maioria dos que me vão lendo. Só que é a mais absoluta verdade. Vivi lá dentro
os dias mais felizes de uma infância sublime onde fui muito amado por demasiadas pessoas.
Era uma casa com muita gente. Foi sempre assim.
Também lá vivi mais tarde os anos mais infelizes da minha vida,
quando me separei da Sandra e tinha a minha tia Helena Branca a morrer de uma
doença terminal nos paliativos em Ourém.
Sem dinheiro, sem trabalho, sem nada.
Só a morte eminente da
minha última pessoa, porque já tinham partido 4, e a separação de quase 20 anos
de um casamento extremamente feliz, com dois filhos maravilhosos.
Só as paredes daquela casa me devolveram algum conforto.
As paredes, o meu Kadafy, a música e uma
garrafa de Jameson todas as noites.
A solidão absoluta.
O fracasso. A ausência de perspectivas. E dívidas de centenas
de milhares de euros.
Enterrei aquela que foi a minha verdadeira mãe, parei com o
Jameson, continuei a pagar todas as dívidas, divorciei-me. Rentabilizei novos
espaços, prescindi de outros para os arrendar, equilibrei-me.
Melhorei a minha velha Casa.
Fui comprando mobílias novas. Construí novos espaços.
Terminei negócios com décadas de espera. Dupliquei o valor do meu património e
fui ficando feliz comigo. Nunca faltei aos meus putos. Nunca.
Aprendi a ficar feliz sozinho. Logo eu que nunca estive, desde
o princípio, … sozinho.
Adaptei-me a mim próprio e apaixonei-me perdidamente por uma técnica
superior da Câmara Municipal da Marinha Grande, com um temperamento
completamente oposto ao meu. Coisa bastante estranha.
Nessa altura a minha casa tinha algum requinte antigo com uns
laivos de modernidade numa ou noutra divisão, apesar de ser uma casa
centenária.
Íamos ficando por lá, de vez em quando.
Mas a casa já antiga de cento e quase vinte anos foi-se
degradando, como já degradada estava. Tentei-me mantendo nela à exaustão.
A Helena e o António deixaram de a habitar, nem sequer temporariamente.
Fiquei eu sempre, como uma espécie de guardião e o João que
nunca se ralou com nada quando trabalhava aos verões e ficava comigo três
meses seguidos.
Era o único com quem eu e a casa contávamos sempre.
Depois fui fugindo para a Nazaré. Aqui e ali, talvez porque
já nem eu acreditava que o meu ninho tinha braços para me abraçar. Coisa
estranha, até porque acabava por voltava sempre a ela.
O meu primo Zé viveu toda a vida na casita que os meus avós
tinham na foz na Nazaré..
Artº 3 das finanças. Casa brutalmente antiga. Um casebre.
Quando após 50 anos de partilhas, onde fomos altamente prejudicados (eu e ele)
pelos nossos tios e primos, conseguimos fechar um razoável negócio com um bom
empreiteiro, o Zé foi assistir à demolição de uma casa em ruínas onde sempre
viveu e passou o dia a chorar, mas fez questão de assistir à sua morte e funeral.
É exatamente assim que me sinto hoje.
Não sou capaz de sair da minha casa destruída por tanta água,
cheiro a mofo, humidade e podridão.
Faz-me lembrar o momento em que o meu pai me morreu nos braços.
Só desejo que esta Casa me morra nos braços agora.
Desfeita de velha, de tão cansada e de quase morta.
Mas nos meus braços, porque nos braços dela sempre adormeci e
acordei.
Só estou aqui agora à espera que feches os olhos, a olhar
para mim, tal como o meu pai fez.
Só isso.
É pedir muito?
Não creio.
Até porque te irei reerguer.
Daqui a uns anos.
Podes estar certa disso, meu amor!
Só que hoje nem penso nisso, porque me encontro profundamente triste. Aliás, passei a noite inteira a vaguear por ti e a chorar perdidamente. Sem barulho. Só com lágrimas, como naqueles tempos tristes. Lembras-te? Em que as limpava à toalha de banho.
Foi assim a noite toda.
Em silêncio.
Só tu, eu e as lágrimas a cair na água que cobre o soalho. E mais ninguém. Como deve ser.
Olha para mim, só para te fechar os olhos, querida.



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