A Casa da Minha Vida.

 


Na primeira década do século passado na Vieira, as casas consideradas à época de grandes dimensões, eram poucas. Muito poucas.

Talvez umas cinco.

A minha, a casa onde hoje existe a Loja da Maria Mimi no Largo da República, a casa do Senhor Dâmaso Luiz dos Santos (hoje em ruínas), a sede do Jardim dos Pequeninos e a Farmácia. Existia ainda a Escola do Professor Correia Roseiro, mais tarde chamada Singer, onde agora se encontra o lar de idosos e a casa sita na anteriormente designada rua nove de abril, hoje Largo da República onde reside o meu primo Luís Cláudio Faustino - casa de família, tal como a minha - há gerações.

De resto a esmagadora maioria das habitações eram de pequena para não dizer de minúsculas dimensões (tipo uma porta e duas janelas na frente com uma chaminé) e algumas (poucas) habitações de dimensões médias com primeiro andar para habitação e comércio no r/c.

Era assim a Vieira, na primeira década do século XX.

Há muitos anos que a casa onde praticamente nasci e sempre vivi atravessa problemas vários, normais pelos anos, pelas diversas obras e pela antiguidade.

Deixei-a com enorme sofrimento por nela acordar e adormecer todos os dias, desde sempre.

Já não reunia condições para continuar dentro das suas paredes e mudei para um apartamento. Fiquei seu vizinho. Nunca a abandonaria.

Foi um processo demasiado sofrido, como já por aqui o deixei expresso por mais que uma vez.

Construí, inexplicavelmente, uma relação mágica com aquele espaço, como se de uma pessoa se tratasse.

Coisa bastante estranha, talvez até incompreensível para a maioria dos que me vão lendo. Só que é a mais absoluta verdade. Vivi lá dentro os dias mais felizes de uma infância sublime onde fui muito amado por demasiadas pessoas.

Era uma casa com muita gente. Foi sempre assim.

Também lá vivi, mais tarde, os anos mais infelizes de todos os que já conto, quando me separei da Sandra e tinha a minha tia Helena Branca a morrer de uma doença terminal nos paliativos em Ourém.

Sem dinheiro, sem trabalho, sem nada. 

Só a morte eminente da minha última pessoa, porque já tinham partido 4, e a separação de quase 20 anos de um casamento extremamente feliz, com dois filhos maravilhosos.

Só as paredes daquela casa me devolveram algum conforto nessa altura.

As paredes, o meu Kadafy, a música e uma garrafa de Jameson todas as noites.

A solidão absoluta.

O fracasso. A ausência de perspectivas. E dívidas de centenas de milhares de euros.

Enterrei aquela que foi a minha verdadeira mãe, parei com o Jameson, continuei a pagar todas as dívidas, divorciei-me. Rentabilizei novos espaços, prescindi de outros para os arrendar, equilibrei-me.

Melhorei a minha velha Casa.

Fui comprando mobílias novas. Construí novos espaços. Terminei negócios com décadas de espera. Dupliquei o valor do meu património e fui ficando feliz comigo. Nunca tendo faltado aos meus putos. Nunca.

Aprendi a ficar feliz sozinho. Logo eu que nunca estive, desde o princípio, … partilhado um espaço que fosse apenas comigo mesmo.

Adaptei-me a mim próprio e apaixonei-me perdidamente pela Helena, uma técnica superior da Câmara Municipal da Marinha Grande, com um temperamento completamente oposto ao meu. Coisa bastante estranha.

Nessa altura a minha casa tinha algum requinte antigo com uns laivos de modernidade numa ou noutra divisão, apesar de ser uma casa centenária.

Ela ficava por lá, de vez em quando.

Mas a casa já antiga de cento e quase vinte anos foi-se degradando, como já degradada estava. Tentei-me manter nela até à exaustão.

A Helena e o António deixaram de a frequentar, nem sequer temporariamente.

Fiquei eu sempre, como uma espécie de guardião do velho castelo e o João que nunca se ralou com nada quando trabalhava aos verões e ficava comigo três meses seguidos.

Era o único com quem eu e a casa contávamos sempre.

Depois fui fugindo para a Nazaré. Aqui e ali, talvez porque já nem eu acreditava que o meu ninho ainda tinha braços para me abraçar. Coisa estranha, até porque acabava por voltava sempre a ela.

O meu primo Zé viveu toda a vida na casita que os meus avós tinham na foz na Nazaré..

Artº 3 das finanças. Casa brutalmente antiga. Um casebre. Quando após 50 anos de partilhas, onde fomos altamente prejudicados (eu e ele) pelos nossos tios e primos, conseguimos fechar um razoável negócio com um bom empreiteiro. O Zé foi assistir à demolição de uma casa em ruínas onde sempre viveu tendo passado o dia inteiro a chorar enquanto as paredes caiam com as máquinas. Mandava-as parar para correr atrás de tijolos inteiros, apenas para os guardar. E conseguiu reunir uns 50. Tijolos com uns 300 anos, que ainda hoje preserva e mandou colocar em várias paredes do seu apartamento novo.

É exatamente assim que me sinto hoje. A mandar parar a chuva e correr atrás de bocados inteiros da minha casa.

Não sou capaz de sair da casa destruída por tanta água, cheiro a mofo, humidade e podridão.

Faz-me lembrar o momento em que o meu pai me morreu nos braços.

Só desejo que esta Casa me morra nos braços agora.

Desfeita de velha, de tão cansada e de quase morta.

Mas nos meus braços, porque nos braços dela sempre adormeci e acordei.

Só estou aqui agora à espera que feches os olhos, a olhar para mim, tal como o meu pai fez.

Só isso.

É pedir muito?

Não creio.

Até porque te irei reerguer. 

Daqui a uns anos.

Podes estar certa disso, meu amor!

Só que hoje nem penso nisso, porque me encontro profundamente triste. Aliás, passei a noite inteira a vaguear por ti e a chorar perdidamente. Sem barulho. Só com lágrimas, como naqueles tempos tristes. Lembras-te? Em que as limpava à toalha de banho. 

Foi assim a noite toda.

Em silêncio.

Só tu, eu e as lágrimas a cair na água que cobre o soalho. E mais ninguém. Como estas coisas sempre devem ser.

Olha para mim, só para te fechar os olhos, querida.


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