Honradez.

 


Hoje o meu mais novo completou 21 anos.

O meu pai, homem de outra geração, no dia em que fiz a mesma idade e estava como sempre estive de férias porque faço anos quase no verão, dirigi-me, de manhã, ensonado e de pijama ao seu escritório, como fazia todas as manhãs para o cumprimentar. Confesso que não estava à espera de nada, porque nunca me oferecia coisa nenhuma. Deixava essa tarefa para a minha mãe e para as minhas tias.

Naquele dia e pela primeira e única vez na minha vida, levantou-se da sua secretária e estendeu-me a mão enquanto eu lhe ia dar um beijo.

Estranhei evidentemente tanta formalidade. E, como sempre fui um desbocado inconveniente perguntei-lhe logo: “mas o que é isto pai ?”

Olhou-me com manifesto prazer e atrevimento e só me respondeu: “a partir de hoje já és um homem”. 

Desconcertou-me. Mas estendi-lhe a cara na mesma. Abraçou-me muito e eu fui-me logo embora, como quem foge das emoções. 

Nestas coisas de grande intimidade, principalmente com o meu pai, sempre fui assim. Esquivo. Devo ter comentado com as minhas tias o meu espanto. Não me devem ter dado qualquer importância.

O enorme privilégio de ser pai, confere-nos responsabilidades que quando agarramos ao colo pela primeira vez um bebé acabado de nascer à nossa frente, estamos muito longe sequer de supor tudo o que nos espera.

A semana passada fiz um enorme negócio e fiz questão de levar o meu João comigo.

Perdi, simplesmente porque quis, 16.000 € à cabeça. 

Queria ensinar ao meu filho mais novo que a palavra não tem preço.

Devo ter conseguido, porque sei por experiência própria que só retemos para sempre na memória alguns (poucos) exemplos a que assistimos na primeira pessoa.

Tenho-lhes dado alguns, mesmo assim.

É que por vezes, na vida, ganha sempre quem aparenta perder.

Talvez um dia o João conte essa história aos meus netos e a consiga passar para dentro das suas almas.

Essa também é a função de um pai.

É por essas e por outras que nunca terei paciência para abundantes ausências de carácter, de palavra e de dignidade.

E, em todas estas manifestações de ausência do que mais sagrado é, sempre serei um tipo de 8 ou de 80.

Parabéns Joãozinho. Meu amor mais pequenino.

Vida longa. Com memória e valores.  

E felicidade conquistada, palmo a palmo e devagar, porque tudo o que é fácil e rápido de nada vale. Como nunca valeu.


Comentários

Mensagens populares