Conto. "o Cabeças, parte 1"

 




O Cabeças.

Hoje iniciarei um conto ou melhor, uma simples estória de vida do senhor Cabeças. Homem robusto, sofrido, passou muito até atingir o grau de Mestre, na escrita do seu primogénito, que à falta de melhores pergaminhos resolveu dar esse título ao seu ilustre pai.

Não, não era do GOL. Era Mestre da sua própria estória, como aqueles gajos que com a quarta classe dizem que são formados pela Universidade da Vida.

Quando vejo ou leio estas coisas lembro-me sempre do meu avô e do meu pai, com a quarta classe, que sempre leram livros à exaustão. Mas pronto, o senhor Cabeças transformou-se em Mestre de coisa nenhuma.

Talvez do micro industrial, bastante burro por sinal, para quem vendeu limas por este imenso Portugal fora.

Um dia o micro industrial foi ao escritório do meu pai e disse-lhe de chofre: “Ó Armando estou a ler um livro grande, já vou no D e não compreendo nada!” 

Estava a ler o dicionário. Coisas desta maravilhosa terrinha.

Quando penso que o meu bisavô Jacinto, que antes de ser um dos homens mais ricos da Vieira, com 8 anos, aquecia os seus pés descalços em bostas de vaca no inverno, as manifestações de pobreza (dos Cabeças), dão-me sempre vontade de chorar de tanta comoção pelas outras famílias de pobrezinhos e remediados, como se dizia na altura.

Cada um é como é.

Cada família é como foi.

Nunca tive Mestres na minha. Só homens trabalhadores, loucos e visionários. Nunca Mestres, apesar de eu próprio aos 30 anos ter atingido esse grau na Maçonaria.

Mas o meu pai nunca simpatizou muito com isso e dizia-me sempre, quando ia a trabalhos para a Loja Gomes Freire de Andrade em Leiria: “mas o que é que tu lá vais fazer que eu não te tenha ensinado?” 

Nunca respondi. Mas aquilo ficou-me sempre na memória.

O meu pai nunca foi uma cabeça.

Por isso nunca chegou a Mestre de coisa nenhuma.

Ou melhor, talvez tenha chegado, à mestria da decência, da dignidade, da honradez de princípios e da coragem.

Mas nunca foi um Cabeças, como outros que hoje pintam barquinhos, no descanso da velhice.

Talvez por isso tenha tido, numa tarde de chuva, toda a sua terra a acompanhá-lo à cova.

Milhares de pessoas.

Em silêncio a acompanhar um homem que sempre primou pela prudência no uso da palavra.

Breve. 

Curta. 

E quase sempre assertiva.

(continua)

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