A Hipocrisia e a Inteligência.

 




Tenho muito poucas semelhanças emocionais com o meu pai. Mas, mesmo assim, ainda tenho algumas. O tempo e a vida foram aprimorando as poucas que existem.

De facto, devo estar a caminhar para a velhice. Ou para a sabedoria que só a idade nos vai proporcionando.

Isso não sei.

Por exemplo, sou, aos 57, extremamente tolerante com tantas e tantas coisas que, há dez ou vinte anos atrás nunca suporia ser. Já noutras, encontro-me, tal como o meu pai, absolutamente frio, lúcido e alheio. Não me interessam. Coisas, circunstâncias, pessoas e cinismos vários.

Consigo vislumbrar alguns cenários com uma antecipação desconcertante.

Haverá, três, quatro coisas que nunca esquecerei. Mesmo assim, são poucas, só que suficientemente fortes, para as conseguir esquecer.

O velho Armando Teodósio era assim.

Perdoou coisas que nunca entendi. Manteve outras por perdoar, que sinceramente também não compreendi, por, para mim, tão pequenas terem sido, comparativamente com as grandes que sempre fez por esquecer e perdoar.

Quando eu era presidente da BIP, o jornalista Rui Marques Ramusga entrevistou o meu velhote, como antifascista que foi. 

Uma entrevista de página inteira no JL. E deu-lhe o seguinte título, “Teodósio, quando a Liberdade se escreve com Raiva.” Enorme exagero, porque o meu pai nunca foi homem de raivas. Deu uma boa parangona, como convinha de certo. Mas uma enorme falácia.

Eu e a minha tia Helena Branca assistimos a toda a entrevista e pedimos ao repórter que tivesse alguma moderação no texto. O meu pai, com 20 anestesias gerais, já não tinha a mesma moderação que sempre evidenciou durante toda a vida.

Saiu essa edição.

Trabalhava eu na NovaRede de Porto de Mós e comprei o Jornal e fui almoçar. 

Sozinho. 

Nessa altura estava a ler, com bastante orgulho a coragem do meu pai nas respostas, quando chega um colega meu, senta-se na minha mesa e pergunta-me: “quem é esse velho?” Respondi-lhe friamente: “é o meu pai”. 

Conversa acabada.

Num parágrafo referiu-se, com verdade e lisura acerca do papel do Comendador fascista Albano Tomé Féteira, acerca do seu papel execrável na vida da Vieira, que considerava ‘a sua quinta’. O meu pai esteve para ser preso por ordens suas.

O filho mais novo do senhor Albano, Albanito para todos os seus amigos e conhecidos era um bronco e ressabiado, que lambeu sempre as botas ao Comendador Lúcio Tomé Féteira, como aliás outros sobrinhos e sobrinhos netos e adorava instigar ódios e intrigas. Resolve enviar esse jornal ao seu tio Lúcio, que nessa altura era mecenas da Biblioteca de Instrução Popular oferecendo uma quota de 100 contos de reis por mês. Recebo um telefonema da amante do Senhor Lúcio, a representar o papel de muito preocupada com a futura situação da BIP, porque o senhor Lúcio iria cortar o subsídio se o meu pai não se retratasse.

Essa mesma senhora que roubou posteriormente a herança em mais de 8 milhões de euros que hoje estão certamente numa ou em várias contas do Dr. Duarte Lima e que acabou morta numa estrada no Brasil com dois tiros na cabeça.

Coisas do dinheiro, da canalhice e de todos os mistérios desta vida.

O meu pai ouviu-me, pensou, e só me disse: “eu não tenho de me retratar, isso nunca. O irmão dele foi um fascista e um canalha. Mas o Lúcio, outro canalha, foi uns anos antifascista. Vamos aproveitar a memória do velho.” E escreveu na máquina que guardo religiosamente e que era do pai dele:

“como antifascista que foi, o Senhor Lúcio Tomé Féteira lembrar-se-á daqueles tempos em que lutou, como eu, contra Salazar. Peço-lhe que por um mal entendido do sobrinho de Vª Exªa não ponha em risco a saúde financeira da Biblioteca de Instrução Popular que ajudou contrariamente ao irmão de Vª Exª, a fundar em 1932.”

Eu era um puto de 27 anos e tive imenso orgulho no meu pai. 

Mais uma vez. E pensei, que deveria ser assim, que os antifascistas contornavam a soberba, a ignorância e o poder.

Talvez por isso e tendo um feitio completamente diferente do dele, nunca me vergarei àquilo que penso ser a mentira. Como ele nunca se vergou. Até morrer. 

Como o pai dele, já agora.

Talvez tenhamos todos razão. Talvez.

Uma coisa é certa e apesar do meu pai ter rasgado o cartão do Partido Socialista, quando Mário Soares se coligou com o CDS, ele nunca seria critico de um executivo camarário onde tivesse votado.

Já eu, sou e sempre serei um tipo mais atrevido.

Feitios.

Nada mais que isso.

Feitios.

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