Sábado será o nosso último dia juntos.
"Não digas nada!
Nem mesmo a verdade
Há tanta suavidade em nada se dizer
E tudo se entender -
Tudo metade
De sentir e de ver...
Não digas nada
Deixa esquecer
Talvez que amanhã
Em outra paisagem
Digas que foi vã
Toda essa viagem
Até onde quis
Ser quem me agrada...
Mas ali fui feliz
Não digas nada."
Fernando Pessoa - Talvez.
Agora, tenho ficado por aqui, pela velha casa do Largo da
República, que me acolheu com aquela cumplicidade funda de quem, com o andar
dos anos, sempre foi pensando:
“eu sabia que mais tarde ou mais cedo voltarias para cá,
puto. Tenho estado à tua espera”.
Vou por aqui andando e ficando completamente sozinho. Esta Casa
vai-me fazendo companhia. É uma coisa meio mágica, mas é verdade. Tomou, mais
uma vez, conta de mim e do meu destino. Estou-lhe imensamente grato por isso. É
que, com isso, deixei de estar ou de me sentir totalmente só.
Vai ficando a televisão, com poucos canais, ouve-se música,
muita música. Sem incomodar ninguém é certo, por isso roubei os phones aos
miúdos.
Por vezes vou levar os meus filhos à escola sem ter dormido
rigorosamente nada, porque estive a ler ou a escrever depois de certa hora em
que estive totalmente absorvido com muita, muita música.
Tenho os meus cães, a minha solidão imensa e, por incrível
que pareça, o grande prazer de conviver com tudo isto.
Desde miúdo, penso que nunca ninguém foi, verdadeiramente,
capaz de me ‘domar’. Com os anos, isso tornou-se cada vez mais difícil, para os
outros claro, para não dizer impossível: foi na Escola Secundária em Leiria,
foi na faculdade, foi nos meninos do Salão e do Riomar, quando tinha 18 anos,
foi na Iberomoldes, no BCI, no BCP, na Biblioteca, na Assembleia de Freguesia
da Vieira, na Maçonaria e nos Rotários da Marinha Grande, no PS da Marinha e da
Vieira e na TUMG claro. Nunca ninguém ‘mandou’ em mim. Ou porque não foi capaz
ou porque eu não o permiti. Sinceramente ainda não tenho resposta para este
dilema. Nem me interessa rigorosamente nada.
Isto só vem a propósito de ter sido sempre um ‘outsider’. Por
vezes respeitado ou tolerado, outras desprezado ou alguém para quem ninguém
tinha a mínima paciência.
Fui sempre assim. Ou uma coisa ou o seu contrário. Até
determinada idade, esta forma de ser e estar teve sempre uma certa graça.
Depois dos 40, já não. Tornou-se uma forma de soberba inaceitável por todos
quantos comigo lidavam.
Só esta velha Casa mandou em mim.
Nesta altura, vou ficando a fazer horas para levar os miúdos
à escola, a ouvir música da boa noite fora, a chorar por vezes para dentro (que
é muito mais difícil do que mostrar os nossos sentimentos ou estados de alma a
toda a gente), a brincar com os cães e a fazer contas até ao fim do mês para
pagar tudo e mais alguma coisa que há para pagar. E, tenho-me reconfortado com
o meu estatuto de reformado por invalidez desde os 44 anos, sem ter hipótese de
trabalhar seja onde for, sem abdicar da monumental reforma de 600 €. É, também, por tudo isso, que estou tão
reconhecido a tanta gente amiga que não ‘me ajudou’, quando o poderia ter feito.
Fiz três filhos fabulosos. Por vezes (muitas mesmo) penso que
só cá vim para isso.
Missão cumprida!
O que é um absoluto facto é que tive a enorme sorte de ter
três filhos maravilhosos, solidários com os seus amigos, totalmente
verdadeiros, inteligentes e insubmissos.
Provavelmente, já cumpri o que me era destinado.
É, exatamente nestas horas que para além de me querer ir
embora, sinceramente espero que essa hora tenha chegado.
Tive tudo para ser o mais feliz e realizado dos homens, mas,
simplesmente, e talvez por minha única culpa, não fui capaz de ir por aí.
Tirem-me daqui.
A dor, é muito, mas muito maior do que eu sou capaz de
suportar.
Quero regressar!
Fiz tudo o que tinha de fazer por estas bandas.
Já chega…
Vieira, agosto de 2015
PS:
Volvidos 10 anos, importa dizer, que esta terrível fase foi
devidamente ultrapassada e a única coisa que verdadeiramente importa, é mesmo permanecer.
Convosco e contigo Helena.
A Vida, esta estranha e enorme aventura.
No Sábado, lá ficaremos separados velha Casa. Foste um
maravilhoso ‘cobertor’ em todas as noites de frio.
Até ao dia em que reabriremos, todos, as tuas novas portas e
janelas, com um terraço enorme com vista para o mar da nossa praia onde todos
aprendemos a furar ondas.
Até lá, Casa!
Até lá.



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