Comício no Largo.
Era dia grande na Vieira.
João Sarrico tinha acordado ansioso. Naquele dia tinha muito
que fazer. Normalmente serve cafés ao Lélito, o Pateiro e ao Vereador Bruto das obras.
Chamam-lhe assim, porque faz tudo muito abrutalhadamente. Ruas sem passeios e
sem reconstrução de infraestruturas. Com esse é mais alcatrão eleitoral por
essas ruas, travessas e vias acima.
João Sarrico ainda tinha de fazer 3 telefonemas, mais os
cafés do costume, e policiar as redes sociais, verificando os comentários
negativos oferecidos generosamente pelo povo ao Lélito. Há que pôr likes à
maluca nas publicações de campanha e enviar mensagens a todos os elementos da
lista para fazerem o mesmo, e com isso mitigar (que foi uma palavra que
aprendeu recentemente e da qual manifestamente gosta, depois de ter sabido o
seu difícil significado). Rima com defecar, por isso nunca mais se esqueceu
dela.
Lá pelas 11.00h estava concluída a tarefa dos likes e dos
cafés.
Estava pronto para o resto do dia. Havia que arranjar o
transporte das 50 cadeiras de plástico, arranjar uma pequena aparelhagem sonora
e ir à sede buscar o novo palanque para os discursos. Coisa fina, esgalhada por
uma empresa de comunicação que quer passar despercebida, nesta contenda
eleitoral.
Telefonou ao Batel, um dos candidatos à Junta para arranjar
uma carrinha de caixa aberta para o transporte das cadeiras, pedidas à pressa a
uma associação local, onde pontificavam alguns candidatos.
A cabeça do Sarrico estimava que comparecessem a este mega
evento umas 168 pessoas, mais pessoa menos pessoa. Por isso, se levassem apenas 50 cadeiras, a fotografa oficial da campanha podia apanhar certos ângulos em
que parecessem estar numa rave, com tanta e tanta gente em pé. “a minha cabeça
é um mar revolto em tempestade. As coisas que eu me lembro. Fui muito mal
aproveitado. Se a gente não ganha é que é o car…o. Nem para o piquete das águas
consegui entrar. Nem para esse, nem para fiscal das obras. Tentar tentei, mas
nada. Eu bem disse ao Lélito para despedir o júri desses concursos, para ver se
essa merda de gente ganhava medo e me faziam passar no próximo, mas o tipo não
quis despedir ninguém. Fod…-se. O que um gajo aqui passa e depois o
agradecimento é este. Ingrato da porra.”
O Batel arranjou a carrinha. Sarrico veio à Vieira numa fona
e colocou tudo nos trinques. As cadeiras, o palanque, a aparelhagem. Tudo.
Agora era só esperar os candidatos.
Apareceu o Zé Rodrigo. Uma contratação à última hora no
mercado de transferências. Veio do Bloco. Agora, já veste blazer azul a fazer
pan-dan com as cores do nosso partido. Trazia uma mangueira de apagar fogos,
para evidenciar o seu apego ao associativismo local. Até disse, que se
tivesse ganho as eleições para o Jardim, trazia a mangueira numa mão e uma
chupeta na outra. Mas o povo não o quis a mandar nas crianças. Restou-lhe a
mangueira. Dá sempre jeito.
Como ontem tinha dito o Lélito na reunião do Órgão, a ‘Anita Vereadora’
não pode comparecer. Estava na Irlanda a fazer serviço público. “Mas que merda
foi fazer à Irlanda aquela gaja? Sempre gostava de saber", pensava Sarrico, cheio de inveja e legitima curiosidade.
Tudo pronto. Da Vieira 8 pessoas. Nem o anão do Calado
apareceu. "Ficou a ver a Seleção nos Talhões, de certeza." Nem o Cabo Ranhozinho da Guê Nê Rê na reforma apareceu. “Esta merda tá a correr mal! Tenho de telefonar
aos gajos da Marinha para virem em peso. Um gajo farta-se de trabalhar e nada.
Isto não me cheira nada bem. Ai se não ganhamos, lá vou eu, um doutor, para o
desemprego. Ou atão transformo-me em sushi-man outra vez. Apanho o peixe à
cana, tiro umas selfies com o pescado do dia e vendo sushi para fora. Passa
tudo ao estreito dos impostos e ganho do belo.”
Os carros da Marinha começam a chegar com pessoas. Tudo bem
contadinho, "somos 32".
“Espojem-se pr’ái à vontade para parecermos muitos. A
fotografa, sempre atenta e a fazer horas extraordinárias, discordou imediatamente.
“Ó João, não é assim. As pessoas têm de estar todas juntas, para parecerem
muitas. Eu tiro algumas fotos com o pessoal todo acantonado e o Largo parece
que está a rebentar de gente.”
O Sarrico petrificou. “Tens razão Ama Cláudia. Como é que eu não
me lembrei disso?” Ela devolveu-lhe um olhar dengoso, como quem diz: “porque és
um bronco.”
Falou um puto da Marinha.
Palmas, palmas.
Falou o Zé Rodrigo que teve de largar a mangueira para
agarrar no microfone e falou o Lélito a dizer: “Temos um compromisso com a
Vieira.”
Ouviu-se do Farto alguém gritar:
“E os contratos inter administrativos palhaço? Deixaste-os
cair no ponto da crastinha quando vinhas para cá? Palhaço de merda!”
Aquilo acabou logo. Ainda era para fazerem um peditório pela
população, mas dispersaram todos e lá foi o João Sarrico acartar as cadeiras, o
palanque e a aparelhagem para cima da carrinha de caixa aberta do Batel.
O Zé Rodrigo pegou na mangueira voltou para o quartel e 'Lélito, o Pateiro' estúpido como só ele, voltou-se para a fotografa de eventos e perguntou, ufano: “Isto correu bem, não correu môr? Já ganhámos!” ao que ela respondeu, com o seu melhor ar convincente e autêntico: "já!"



Comentários
Enviar um comentário