Vieira do Liz. Poemas, rimas e versos. 3 descontentes em 136. Já foi bom!
Quantas
vezes na minha vida fui injusto, disparatado ou mesmo ridículo perante o meu
pai? Quantas vezes?
Observava
apenas duas coisas nessas alturas: o mais absoluto silêncio e um par de olhos
verdes profundamente tristes.
De nenhuma
destas ocasiões me esquecerei nunca!
Eu e o meu
pai éramos absolutamente apaixonados um pelo outro.
Sempre
fomos.
Até ao fim.
No entanto,
não seria possível termos temperamentos tão opostos.
Se ele era o
silêncio, eu sempre fui a festa, a exuberância, o exagero.
Hoje, que
até estava bem disposto, saí de casa para pedir meia dúzia de batatas
emprestadas no Farto, porque o João chega tarde para jantar e tinha-me
esquecido de fazer as compras básicas e deparo-me com um poeta do livro de
rimas e versos, que a Junta de Freguesia editou há um mês. Cruzei-me com um senhor que sempre
estimei e que não via desde essa maravilhosa tarde.
Abordei-o
com toda a simpatia do mundo.
Dou com uma
cara carrancuda, fechada, magoada e revoltada.
Estranhei!
Começa num
ror de críticas à obra, porque lhe teria sido retirada uma quadra da sua (nas suas palavras) “obra-prima”, ‘Arte Xávega’ de seu nome. “Erro da gráfica, certamente!!!”, dizia o senhor em alta voz!
Tal como a
minha mãe e o meu avô António, fervo em muito pouca água, mas fui-me contendo.
Acendi um
cigarro, puxei os óculos para cima, fui-me fazendo distraído, mas as críticas e
a injustiça das mesmas, não paravam.
Começo a
lembrar-me de outras, todas vindas de alguns (poucos) autores editados (uma autora houve, cujos escritos foram integralmente publicados, que me disse que o livro deveria ter mais páginas. Foi aí que comecei a saber que os livros deveriam ser feitos a Kg e a metro!) e a água começa
a entrar em fervura breve e abundante dentro da minha cabeça.
Fiz então uma
coisa que nunca antes tinha feito na vida. Voltei-lhe as costas, não sem antes
de lhe ter dito na cara: “de facto há gente que não merece nada!”
No prefácio
desse livro, que demorou três anos a ser compilado vem escrito e com a minha
assinatura aposta, o seguinte:
"Atendendo
a todas e muitas foram as poesias oferecidas para a construção desta edição,
autores existem com diferentes participações. Alguns com dois, três ou mais
poemas, outros apenas com um texto ou parte dele.
O
critério de escolha, como qualquer critério é sempre subjetivo e apenas a mim
responsabiliza.
Este
trabalho foi uma ideia que partilhei com a nossa Junta de Freguesia, tendo-me
sido concedida, desde o primeiro dia, a escolha final de todos os trabalhos
apresentados por quantos o desejaram fazer, bem como todo o trabalho e
liberdade absoluta relativa à produção integral desta obra.
Tenho
como certo que dificilmente poderíamos ter construído, todos, um trabalho final
melhor e mais autêntico."
Não posso
dizer que o jantar estivesse mau, porque não estava. Eu é que não o soube
engolir.
Sobrou para
o meu Joãozinho, que conhece o poeta e só me dizia: “deixa lá pai, não fiques triste. Era
isso que o senhor sentia. Deixa lá.”
Eu, como
sempre, nunca passarei de um exagerado e só lhe respondi:
“não tenho qualquer tolerância nem para a ingratidão nem para a chico-espertice. Sou assim e não há nada a fazer!”
Desabafei depois com um amigo, que a rir, só me respondeu:
"devias ter dito que o Camões quando escreveu os Lusíadas fez 12 Cantos e só lhe publicaram dez!"
Não achei graça nenhuma. Embora tivesse.
Aqui fica o verso omitido:
"De proa ao mar
Há um barco na praia
Já aparelhado prestes a entrar
O arrais atento, olha o horizonte
Onde as aves passando, vão mergulhando
Sobre o cardume de sardinha abundante
Que vai a passar
E naquele instante um sonoro apito
Procede o grito
Rapazes prómar"
Ipsis verbis.
As minhas desculpas ao poeta, pela tão grave omissão!
Para a próxima, que faça uma edição de autor.



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