Porque hoje passei o dia a lembrar-me de vocês todos.
Não.
Não podias ir assim,
sem mais nem menos.
Sem uma palavra…
Sem uma palavra que fosse.
Não podias.
Até porque,
tu sempre te confundiste com as palavras.
Todas as palavras.
Sempre foste diferente da Leta e do Pai nesse aspecto.
As palavras foram contigo e para ti uma espécie de companhia permanente.
Não podias ir pelo silêncio,
de quem já não regressa a casa,
sem sequer haver um murmúrio…
Sempre,
mesmo quando não se podiam manifestar opiniões,
quando lias o República e a Seara Nova,
estiveste lá,
no meio das palavras.
Sempre estiveste.
Muito antes do 25 de Abril,
não tiveste medo de ter opinião e de trazer as palavras contigo.
Nem mesmo depois.
Nunca fizeste muita cerimónia com a discórdia, com a contradição e com o confronto.
Nesse tempo era tão difícil ser-se gente livre,
mulher livre,
corajosa e ‘(ir)responsavelmente’ destemida.
Hoje é difícil imaginar.
Ainda mais agora e por comparação com algumas sinistras e medianas figuras, que emergiram do vazio absoluto, do politicamente seguro e do vulgar.
Tu, nunca foste uma pessoa fácil,
acomodada
e muito menos vulgar,
que ‘acordou’ apenas com a revolução de 74 e por ai foi andando com palavras convenientes de circunstância breve e interesse imediato.
Com um horizonte ascendente e calculista, só próprio dos lambe-botas desta vida.
Sempre te estiveste a borrifar para tudo isso,
que consideravas,
consideraste sempre,
posturas medíocres e menores,
porque cínicas.
Talvez fosse essa a razão para teres sido tão arrogante para alguns daqueles que, politicamente, nunca tendo conhecido o 'caminho das pedras',
" lá andam agora …
‘a ramalhar’ por ai, …
até um dia,…,
em que, as máscaras,
todas aquelas máscaras,
inevitavelmente,
cairão! “…
dizias tu, umas vezes revoltada, outras completamente indiferente, porque já nada te surpreendia, nem mesmo a ingratidão, a soberba e a falta de memória.
...
Foste, para mim, o último farol,
o derradeiro crivo,
a última critica,
que sempre tive por perto, para atestar os meus erros e fracassos, os meus caminhos ou as minhas posturas, opiniões e contradições diversas.
Eras assim, foste sempre assim, uma espécie de ‘aferidor’ da minha vida e de mim próprio.
Conhecias-me como ninguém.
...
Alguns sucessos houve,
em que nunca quiseste,
como outros quiseram,
deixar de me abraçar com uma alegria e felicidade imensas e transbordantes.
Até porque, nestas coisas de sucessos, é sempre melhor que nos digam nem que seja uma palavra,
por vezes nem importa qual.
O que correu bem ou, simplesmente, o que não podia ter corrido melhor.
São tão bons, esses momentos…
Foste sempre assim com as minhas pequenas vitórias.
Exageradamente assim!
Quanto aos insucessos,
que os houve,
e muitos,
sempre preferiste murmurar o que correu mal e chorar comigo essas grandes e pequenas amarguras da vida.
...
Foste uma mulher fabulosa.
Linda de morrer.
Inteligente,
altiva quanto baste,
corajosa e sensível.
Foste sempre uma maravilhosa combinação de beleza, simplicidade, altivez, inteligência e elegância.
Sensível e solidária com os outros.
Detestaste sempre a mentira e o cinismo.
Nunca te senti com medo.
Nem da vida, … nem da morte.
Enfrentas as duas de frente, cara à cara.
Sem medo nenhum.
Viveste o que viveste.
Fizeste o que fizeste…
Podias ter feito mais?
Claro que podias…
Mas, simplesmente, não quiseste ir por ai.
Não,
não me trouxeste ao mundo.
Deste-me mundo,
apontaste-me horizontes,
e,
muitas vezes,
muitas vezes mesmo,
foste a força que me faltou, em tantos momentos,
muitos momentos …
e tão difíceis têm sido.
Nunca te deste bem
nem com o dinheiro,
nem com a mesquinhez,
nem com a mediocridade,
nem com a ingratidão.
Tiveste sempre,
quase sempre,
os olhos,
esses maravilhosos olhos verdes,
postos no futuro.
Momentos houve,
e foram vários,
em que,
simplesmente,
parecias,
eras
e foste,
mais nova que eu.
Muito mais nova que eu.
Conheceste a felicidade absoluta, …
muito, …
muito, brevemente.
Provavelmente, nem te deste conta disso.
No entanto, …
e já depois,
muito pouco tempo depois,
houve tanta gente que marcaste.
Pelo amor, pela preocupação, pela ternura e pelos afectos.
Começo por mim, pelo nosso Manel, pelo António e pelo João,…, pela Lígia, o Rui, a Ana Cristina, sei lá quem mais…
Sei lá! …
Foi tanta gente a quem te deste inteira e integralmente e que amaste muito para além do razoável em diversos momentos da tua vida.
Vais embora.
Resolveste ser a última a partir.
… Para vocês todos, deve ter sido tão fácil…
Para a Leta, para o Pai, para a Mãe e para a Psia.
Só que,
para quem fica,
e eu vou ficando …,
… tem sido um vazio enorme, porque me descubro mais frágil, mais só e mais triste.
Ainda mais triste,
ainda mais só e
muito mais frágil.
Deixa-te estar por mais algum tempo.
Mãe.
17 de abril de 2016



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