Cemitérios.
Quando a minha tia Helena Branca morreu, fiz questão que os
meus filhos estivessem comigo e com isso atravessassem, também eles, essa
enorme e inesquecível dor. Voltaria a fazer tudo igual, apesar de todos serem
umas crianças entre os 8 e os 15 anos.
É que a morte faz parte integrante da vida e nunca se deve
esconder. Exatamente por ser um fenómeno natural. E por nos termos de preparar e saber conviver
com ela.
Foi exatamente isso que a minha tia me passou. E fê-lo com
sabedoria.
De todas as vezes que ia ao cemitério arranjar todas as
nossas campas, eu ia com ela. Com 6, sete anos acompanhava-a, sem nunca ter
conhecido aqueles que já não se encontravam entre nós.
A minha tia levava as flores do nosso quintal. Os fetos, os jarros,
as rosas, sei lá mais o quê? Eu era um puto e ajudava-a a levar para o lixo as
flores velhas, a trazer uns baldes de água e ficava a vê-la nesse ritual de
embelezar todas as nossas quatro campas. Deixava depois uma rosa na campa do
meu tio Zé, do meu tio Jacinto, da minha tia Maria e claro do João, pai da
Lígia.
Antes mesmo de se ir embora, beijava uma flor de cada vaso e
dizia: “adeus, meus queridos!”
Era um ritual bonito. Sempre foi.
Talvez por ter sido a última a partir e por ter construído
uma relação de amor profundo com todos os meus rapazes, achei que deveriam ter
estado presentes nas suas cerimónias fúnebres.
Muito criticado fui eu por isso, nessa altura.
Confesso nunca me ter importado. Há sempre gente que consegue
o propósito de tudo achar saber, porque querem, acima de tudo, dizer mal e criticar
seja o que for. Por vezes, como neste
caso, denegrirem o correto. O que é normal e o que está certo. É que a morte é uma parte da vida.
Não gosto, embora necessite de ir, do nosso cemitério. Nem
que seja para ouvir o absoluto silêncio e sentir ou tentar sentir a finitude da
vida, que qualquer lápide evidencia à exaustão.
O fim absoluto.
O nosso cemitério é feio. Não tem árvores, sombras, bancos.
Limita-se a ser uma feira de vaidades ridículas, de exibicionismos breves, por
vezes de quem não soube tratar os seus mortos com dignidade, carinho e amor
enquanto se encontravam vivos.
Mas isto é uma opinião, que como todas as que tenho, só a mim
vincula. Ele é granito do mais caro que há, frases, fotografias e manifestações de amor eterno em manifesta abundância.
Quando o meu avô António morreu, cá em casa, não sabiam como
construir a sua campa. Queriam uma coisa simples e digna. Apenas isso.
Um dia o me pai, com essa inquietação, foi a uma empresa de mármores
em Leiria, que existia ao pé da ponte e da atual sede da Caixa Agrícola, tentar
decidir o que fazer. O dono dessa empresa conhecia o meu avô e sugeriu-lhe um
conceito diferente que se limitava a ser a
aposição em baixo relevo da assinatura, com a data do nascimento e do decesso.
Foi isso que fizeram. Uma campa rasa apenas com essa ‘informação’.
Em mármore branco.
Hoje, depois de almoço, apeteceu-me ir ver os meus mortos.
Foi uma boa decisão. Não se encontrava ninguém no cemitério.
Ao olhar para toda aquela imensidão de campas, essa imagem não me reconfortou absolutamente nada. Na maioria dos casos, não passam de uma exibição de ridículas vaidades. A ver quem ostenta mais. Quem é mais ridículo que quem, porque mais dinheiro tem para evidenciar.
Quando me debrucei sobre os meus, com simples campas rasas de mármore branco, apenas com os seus nomes e datas, senti-me melhor, porque completamente vulgar e 'brutalmente' simples talvez. Sem necessidades hipócritas e exageradas.
Com os anos, as minhas quatro campas foram abatendo. É um trabalho que terei de refazer um destes dias.
Apeteceu-me dizer: “adeus, meus queridos”. Não o fiz, porque
sou cristão e ali, não está nada. Apenas memória, cinzas e pó.
De entre os muitos amigos que visitei, fui ver a campa do meu
primo Luís dos Pinheiros, que tem, para além do nome, esta lapide:
“Aqui jaz pó eu não estou aqui. Eu sou o que fiz”.
Fiz bem em ter ido hoje ao nosso cemitério.
Vim em paz, porque em paz sei que estão todos os meus.
Em campas rasas, com o nome, a data de nascimento e da sua morte.
Não é necessário mais nada.



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