Novos-Ricos.
No dia em que o meu pai morreu, as suas poupanças limitavam-se
a ser 25 ações do bcp e uns trocos na conta à ordem.
Deixou-me um bom património imobiliário, que me salvou da
fome em tempos idos.
Para além disso, entregou-me inesgotáveis exemplos de
dignidade, honradez e honestidade à prova de todas as balas. Manifestações de
inesgotável solidariedade, compaixão, ternura e preocupação com os outros.
Foi isso que o meu pai foi sempre. Um tipo absolutamente
invulgar.
Com a quarta classe.
Culto dentro das suas possibilidades. Amante profundo da
democracia e da liberdade.
Um homem exemplar. Um republicano no melhor que essa forma de
vida, porque de uma forma de vida é, pode significar.
Nada disto digo por ter sido meu pai, até porque é muito
difícil ser filho de um ou, no meu caso, filho e neto de grandes exemplos de
gente completamente invulgar de tão extraordinária ter sido.
Há coisas que só o tempo nos permite contar.
Esta historieta que hoje partilho, é interessante.
Quando era um puto de 17, 18 anos, tinha a mania que era
rico. E possuía contas em dois estabelecimentos (um na Vieira outro na praia da
Vieira), que liquidava no final da época de verão. E, vivia à grande e
à francesa, com uma soberba enorme de dizer, quando saía: “põe na conta”.
Pagava muita coisa a muita gente, é verdade, até porque
nestas coisas de “ricos”, sempre muita gente se chega para usufruir de
imperais, sapateiras, tostas de galinha no Salão, ameijoas de todas as maneiras,
etc “O RA paga, deixa-te estar.” Eu, tal como sempre fui na vida, não fazia a
menor ideia de como iria pagar tudo aquilo que se ia acumulando em 3 meses de
férias. Mas que se lixasse. Quando chegasse a hora H, lá saberia
desenrascar-me. Fui sempre assim. A falta de dinheiro nunca me assustou. Nunca.
Se assim não tivesse sido, as obras da BIP que custaram há 23 anos 220.000 €
orçadas que estavam em 75.000 nunca teriam sidos feitas. E pagas.
Mas foram. Nos últimos dois anos de pagamento com um rigor inexcedível (na gestão das receitas próprias da associação) pelo Álvaro Botas Letra, cumpre dizer.
Nunca tive medo do dinheiro. Por isso sei que deixarei a
minha querida casa pronta, antes de me ir embora para qualquer lado.
Mas, há sempre quem faça contas a tudo. Muito mais à vida dos
outros do que à sua própria.
Há sempre gente assim. Também faz parte. Mesmo em
graças sem graça nenhuma.
Um final de verão houve em que a conta que fui pagar num cafezito da
praia da Vieira não se pôde efetivar porque o proprietário e a sua família
tinham fechado o estabelecimento para passar o resto das férias no Algarve.
Cheguei com 23 contos no bolso para pagar e estava tudo fechado. Fui para
Lisboa na segunda feira, esperando que no fim de semana que estivesse na Vieira
pudesse quitar essa dívida.
Tive azar!
Telefona-me para casa o senhor Fernando, empregado do meu pai nas
bombas a dizer: “fulano esteve aqui, encheu o depósito e disse que não pagava e
vai contar ao seu pai o que o Rui lhe ficou a dever. Diz que ainda tem muitos depósitos para encher, até que a dívida fique toda paga.”
Eu nestas coisas nunca perco a frieza de raciocínio. E disse ao
senhor Fernando para me dar a sua morada porque lhe iria enviar dinheiro por ‘vale
postal’, pedindo-lhe que fosse pagar tudo a tão aflita criatura. Fui resgatar parte
das poupanças que tinha arrecadado de um ordenado das férias de verão do ano anterior na fábrica
de aços. Fui aos CTT e assunto arrumado. O meu pai nunca soube dessa enorme
desconsideração desse sinistro empresário de restauração da praia da Vieira.
Anos passaram sobre esta estória. Muitos anos passaram.
Um dia, eu na Novarede da Marinha Grande, aparece-me, como sempre aparecia esse compreensivo empresário no banco. As suas contas eram extraordinariamente ‘engraçadas’.
Nunca estavam positivas. E se o estivessem eram por um ou dois dias, porque havia
sempre um monte de cheques que as ‘descompunham’ agradavelmente.
A tudo fiz sempre vista grossa, porque sabia tratar-se de um
homem de bem. Honrado.
Uma vez houve em que ia casar o filho com uma menina filha de
gente com posses.
Festa grande, típica de exibicionistas e novos-ricos.
Foi pedir um empréstimo.
Posso dizer que dei tudo por essa operação.
Tudo.
4 vezes recusada.
À medida que se aproximava a data do casamento, o desespero de
não o poder pagar aumentava. Começou a aparecer com a esposa a perguntar pelo
último despacho.
Concluí que aquilo só lá ia com uma cunha a algum diretor de crédito importante. E isso propus ao sub gerente: “falas com o senhor tal que o
conhece. Ele aprova isto”. “tá bem”, foi a resposta. O gerente do balcão
encontrava-se de férias nessa altura.
Na véspera do casamento, em frente aos pais do noivo a chorar de
desespero, fui perguntar sem ninguém perceber: “então falaste com o senhor …?”
“Não, não falei. Que se foda.”
Hoje este funcionário é ainda colaborador desse banco e
quantas promoções tem tido... pela graça de Deus nosso Senhor.
A mim, caiu-me o chão nessa altura.
Quando me volto a sentar e a olhar para os meus clientes, só
lhes digo: “fiquem descansados. A que horas é que posso estar com vocês hoje lá
no restaurante?
……..
Era uma sexta. O casamento no domingo.
Cheguei a casa contei a estória e pedi dinheiro ao meu pai
para lhes emprestar.
Nem pestanejou.
“Fazes tu muito bem. Isso não se faz.”
Caso isto se tivesse sabido eu teria sido despedido sem apelo nem agravo. Penso que aquela gente nunca se apercebeu do que tinha arriscado por eles. Logo eles que me teriam envergonhado vinte anos antes, sem dó nem piedade em frente ao meu pai.
O puto casou no domingo seguinte.
O pai levou uns 2 verões a pagar. E eu nunca pude
contar isto a ninguém.
Anos mais tarde fiz um favor a um cliente, que beneficiou amplamente o banco e fui despedido porque não tinha cumprido com os regulamentos internos e 'desrespeitado a minha hierarquia'.
Recorri à justiça e ganhei em primeira instância, onde os FACTOS foram discutidos e aprovados, ouvidas todas as testemunhas.
Se agora conto estas estórias, é porque as tenho atravessadas e
vem-me à memória sempre que ouço certas manifestações de inveja breve e
complexos de superioridade de quem pensa que há certas profissões ou efémeros
estados de material conforto que nos podem colocar acima seja de quem for.
A gloriosa Fátima Cardoso, há dois meses brindou-me com um mail irreproduzível de tão canalha que acabava assim: "quem és tu que foste despedido do banco por justa causa? Quem és tu?"
O meu João, que até é um puto delicadíssimo, viu-me a responder a uma coisa e perguntou o que estava a fazer. Dei-lhe a ler o mail da magnífica Fátima. Leu atentamente e virou-me as costas com esta frase singular: "tu faz o que quiseres, mas quem responde ao esterco, transforma-se em merda!"
Não respondi.
No domingo passado, por exemplo, um ilustre marinhense, com
enormes pergaminhos familiares escreveu o que se segue a meu respeito, só
porque postei uma foto com a minha família num domingo à tarde na Nazaré.
“És de facto um troca tintas, deixando-te vencer pelo o apelo
dos novos ricos que agora vivem na nova Nazaré dos ricos, em vez da humilde
Vieira!
Afinal não és assim tão natural como apreguavas.
Vendes-te por dois carapaus com sombra de um porto de abrigo,
em vez da tua nobre, enorme e magistosa terra que te viu nascer.
(nota: ataque pessoal - cavalo para C4 para xeque mate”
Miguel Próspero dixit
Tá tudo certo Miguel, menos ‘Magistosa’ que se escreve com um 'j' e um ‘e’ e ‘apreguavas’ se escreve com um ‘o’.
Novo rico, não sou, nunca fui, nem nunca serei.
Quanto à Nazaré, terra da minha mãe, da minha avó Maria, dos meus bisavós, trisavós e tetravós (uns 300 anos por lá, a avaliar por defeito).
Provavelmente há muito mais gerações que os ilustres ‘Prósperos’ da Marinha Grande.
E, se te deixarem um casebre com 15 metros de frente a dividir por dois, ficas igual a mim.
Sete metros e meio de frente. Talvez sejam suficientes para te transformares num novo-rico. Coisa que não creio, rapaz. Porque, quando se fica com o que já se tem ou se tinha, não se alteram rigorosamente nenhumas premissas, porque a vista, no que me diz respeito, é a mesma que sempre foi naquele artigo 3 das finanças.
artº 3.
Casa antiga. Daquela casa onde se permitiam guardar os barcos da Arte Xávega da Nazaré no quintal, a troco de alguns peixes para matar a fome.
Escreves muito pá.
Escreves muito depressa.
Falas muito Miguel e, como diz o povo, "quem muito fala, pouco acerta."
Outra coisa, a minha mãe, nazarena, era professora do ensino primário. Que sempre trabalhou para poder estudar, desde os 12 anos. Professora das boas, das antigas e ... "apregUavas" irritá-la-ia muito mais que as tuas miseráveis e tristes considerações, porque nunca deu importância a quem nunca a teve, mas "MaGIstosa"????
Francamente!
Recomendo-te um caderno de duas linhas para acertar a letra e fazer cópias, muitas cópias, gramática e ler, ler muito. Faz bem ao espírito e ajuda a escrever sem erros.
Vai tentando rapaz.
Vais ver que ficas melhor.
Tudo isto para dizer que nem sempre o meu filho mais novo tem razão.
Por vezes, quem responde ao esterco, não se transforma em merda.
O caso da Fátima Malesso foi uma breve exceção! Por isso não lhe respondi.



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