Aurélio Gouveia.

 


Nunca consegui ler ou estudar a ouvir música. Tinha de haver silêncio à minha volta. Por isso, quando andava na faculdade nunca fui capaz de estudar em cafés.

Fui sempre assim. Até há uns dois ou três anos. Com a vulgarização dos phones sem fios e o acesso à música e a filmes facilitado, playlists e tal, fiquei completamente diferente.

Hoje leio e escrevo com uns Bang & Olufsen na cabeça. Do melhor som que a vida tem.

Isto para dizer que me apareceu agora uma música antiga e lindíssima. “Perfídia” de seu nome. Maravilhosa música. Sublime som.

Quem me apresentou a esta e a outras obras-primas mexicanas, (anos 40), foi o meu querido Aurélio.

Saudades. Imensas e eternas saudades.

Eram como irmãos. Ele, o meu pai e as minhas tias. Primos direitos. Vizinhos de porta com porta.

Ando há tempos a tentar escrever sobre ele.

Tem-me faltado a coragem para isso, confesso.

Emociono-me sempre com essa ideia e acabo sempre por desistir.

Até hoje.

Homem profundamente desconcertante, porque pleno de uma lucidez brutal e por vezes bastante fria, combinada com uma sensibilidade totalmente invulgar. Exigente como muito pouca gente que conheci em toda a minha vida. Sempre me tratou desde o dia do meu nascimento como um filho. Por isso lhe dizia: “tu, és o meu pai de Lisboa”. Como tive um percurso académico bastante ziguezagueante, dei-lhe inúmeras preocupações e alguns sofrimentos.

Sempre tive consciência disso.

Cumprimentei-o toda a vida com um beijo.

Sempre o tratei por tu. Nem os filhos, nem os sobrinhos o tratavam assim. Por tu. Como se fossemos da mesma idade. Estas coisas são engraçadas.

Tínhamos coisas parecidas, é verdade. Éramos capazes de ferver em pouca água. Coléricos. Não um com o outro. Isso não. Com as coisas da vida. Depois de remoídas as cóleras, a coisa passava rápido. Rápido demais por vezes. Já quanto aos sofrimentos, também éramos parecidos. Poderiam prolongar-se por anos e anos, porque, tal como eu, sempre foi detentor de uma memória brutalmente invulgar.

O Aurélio, homem de família, de afetos, leal aos seus Amigos, sensível como poucos. Com um sentido de humor absolutamente invulgar e inteligente.

Falávamos ao telefone sempre que me apetecia. E eram horas de graças, memórias, partilhas. Muito sofrimento partilhei com ele. Imenso e intenso sofrimento. Sempre teve uma rara capacidade para me ouvir e quando sentia que não conseguia pôr-me no certo caminho, telefonava à Lígia, preocupado.

Foi uma vida assim. Uma vida inteira assim. Até ao dia da sua morte.

Escrevia maravilhosamente.

Os melhores e mais sublimes poemas do recente livro editado pela nossa Junta de Freguesia, têm a sua assinatura.

Como ficaria feliz de se saber reeditado, ainda que com apenas 3 poemas.

Amava a Biblioteca como poucos.

Amou a Vieira sempre e para sempre.

No auge da sua vida profissional, já em Lisboa, tinha colado na parte de trás do seu carro um barquinho da Arte Xávega, como se de um galhardete ou  certidão de nascimento pública se tratasse.

Há pessoas que por cá andam com a Vieira na boca, que nunca se lhe compararão. Nunca! Porque a vida está estragada, plena de gente de plástico, sem qualquer substância, valor ou memória. Muitos procuram palcos para destilar as suas ridículas vaidades.

O Aurélio tinha motivos e direito a palcos, porque as coisas que deixou nunca foram efémeras, nem medianas e muito menos medíocres.

Quando eu era puto e andava a brincar com os meus amigos no largo do Chafariz e via, lá pelo verão um Ford Escort branco com o capot preto a aproximar-se, sabia que era o Aurélio que vinha de fim de semana ou de férias. Largava tudo e ia a correr até ele estacionar. Beijava-me e dizia-me assim: “amanhã vamos lanchar os dois e depois vens comigo e com a Licas aos campos do Lis passear de carro.”

Num desses passeios, eu com os meus cinco anos, no banco de trás, só o ouço a dizer: “Licas, limpa-me as lentes dos óculos por favor.” Trocou os óculos que trazia por uns Ray-Ban com lentes verdes. Eu, não estava a entender aquele estranho ritual, perguntei: “Olha lá Aurélio, mudaste de óculos porquê?” Ele só me disse, a achar graça, “porque estes são de sol”. Eu, pensei um pouco e respondi:

”porquê? os outros eram de chuva?” 

Passei a vida a ouvir esta estória, de tanta gargalhada que produziu.

A falta que me fazes pá. 

Nem sabes quanta! ...

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