A minha Tia Helena Branca e alguns dos seus discos 45 rpm.
Por vezes contam-se estórias por dá cá aquela palha. Tenho
contado algumas, embora um dia, um dos mais veneráveis vieirenses do
passado bem recente me tenha apelidado desta forma interessante e assaz simpática,
sem sequer ter mencionado o meu nome, por manifesta distração, como é
óbvio:
“Tristes os egocêntricos que tudo sabem e nada têm para
contar, a não ser repetir histórias ouvidas ou afirmar a sua visão da vida
deformada pelo preconceito. “
Talvez por nunca ter recuperado desta triste definição
que foi escrita acerca de mim próprio, adoro contar estórias. Cada vez mais. Algumas
são mesmo estórias da treta, bem sei, mas há sempre alguém mediano como eu, que vai
gostando de me ler. É um conforto.
Hoje estou particularmente bem-disposto, porque a experimentar a minha última aquisição. Um gira-discos, que implicou que tivesse passado o dia inteiro a procurar todos os vinis que por cá ainda estão nesta velha casa com mais de 120 anos. Mais antiga que os discos propriamente ditos.
Tal como com os livros, ele há os do meu pai, os da minha tia
HB, os meus e os do meu avô (de 78 rpm para grafonola) …
Em 45 rpm tenho por cá a Simone de Oliveira em todo o seu
máximo esplendor, do meu pai evidentemente, do meu avô é mais poesia, meus são
todos os 45 rpm das histórias da Disney e afins em locuções brasileiras, já os
LP’s são os espectáveis para um puto entre os 15 e os 20 anos, da minha tia HB
é outra coisa – todos ou quase todos com a sua assinatura na capa, tal como fazia nos seus
livros com um HBranca.
Tal como eu, assinava tudo sem apelidos. Só hoje reparei nesse
pormenor. Mas, os discos dela são 'outros'. Devia, por essa altura partilhar tudo
com o meu pai, e mais tarde com a Lígia, penso eu.
Passados tantos anos, torna-se engraçado constatar certas
coisas que se limitam a ser tudo o que dela sabia certo.
Acerca disto irei neste post publicar fotos das capas de ‘apenas’
4 discos. Quem quiser que pense o que mais lhe aprouver acerca dos mesmos.
Um dos discos tem o ‘Avante’, Hino do PCP, como toda a gente
deveria saber.
Pois. Só que, por esta altura, já pouca gente sabe estas
coisas.
A minha tia sempre detestou aproveitamentos políticos e
outras tretas do género, porque viveu o fascismo, manifestando-se contra essa ‘estranha’
forma de ser e de estar. E fê-lo em público.
Diversas vezes.
Se o meu avô António se preocupava com a Liberdade, os seus
filhos tinham, para além disso, outras preocupações, que se prendiam
essencialmente com a justiça social, a igualdade de oportunidades para todos e
o combate a todas as formas de injustiça.
Acho alguma graça a tudo isto, porque assisto, aliás, assistimos todos, a uma geração de políticos sem passado, sem referências, sem lastro, sem alma, sem autenticidade. Quando tudo vale para ‘ganhar’, como se de um jogo de cartas se tratasse a nossa efémera e frágil democracia, que se tem limitado a ser uma ‘coisa insípida e incaracterística’ ultimamente, não vale um voto!
Com tantos e tão bons exemplos que os meus me deixaram, como
acham que me devo sentir nestes turbulentos tempos eleitorais? Sim, porque
nesta sagrada casa, ninguém adormeceu fascista para acordar comunista de 24
para 25 de Abril como ainda pela Vieira ainda existem alguns ‘restos’ de algumas tristes famílias que acordaram tarde para a liberdade, porque sabujos do regime
sempre tinham sido. Ainda por cá há disso. Alguns até já vão na terceira geração.
O que me aborrece nestas matérias é que toda ou alguma gente
sabe disto, conhecem os apelidos, mas, …………………. é mentira.
Triste terra esta!
Agora, há gostos e rótulos para tudo.
Em tempos pré-eleitorais, encontra-se de tudo nesta sagrada terra de deus. Os seus donos (ou os
que se julgam ser), outros, uns putos ambiciosos e decorrentemente patéticos, outros os ‘senadores’ e ainda os de carne de porco, gordura, colorau, sal e tripas ou seja, os que não
se importam de encher chouriças e por fim, os ilustres. Aqueles que abrem e
fecham as listas.
Tenho anos demais de tudo isto para me sorrir a todas estas
procissões e feiras de ridículas vaidades.
De tudo isto, resta o quê?
Quanto a mim, que fui educado pela minha tia HB e pelo meu
pai, …. não me parece que reste rigorosamente nada! De novo.
No próximo ano, completam-se 50 anos das primeiras eleições
autárquicas em Portugal.
E, para tudo, na vida há um tempo próprio.
Agora (?), logo agora (?), nada conta, porque nada é!
A autenticidade, o tempo e o respeito pela memória das coisas
e das pessoas a isso obriga.
Ao silêncio, à paz e à quietude.
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