Porque nestes dias, não tenho conseguido parar de pensar nela. Só por isso.
21 de fevereiro de 2017.
Ninguém vai conseguir ler até ao fim, mas também, não me interessa nada!
Gostávamos, em
primeiro lugar, agradecer a presença de todos, aqui e
agora, porque, simbolicamente, mais não
é, que, uma forma bem simples, rara
e digna de fazer a derradeira homenagem, a uma
pessoa, neste caso, a nossa tia.
Como penso todos saberão, a
minha tia foi, desde sempre, para mim, como uma mãe. Talvez
mesmo a primeira de todas as três mães, que tive a
honra e a sorte de ter tido na minha vida.
Para todos
os meus filhos terá sido a avó, presente, atenta,
muitas vezes preocupada, mas sempre disponível.
Já para a Lígia,
foi a tia. Aquela tia que sendo a mais nova que todas as
outras tias, vai permitindo que se construa, ao longo do
tempo, dos momentos e dos anos, enormes cumplicidades, desde o
nascimento claro e, inevitavelmente, até ao fim, como
foi o caso.
Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os
sonhos do mundo
Este é
o princípio do maior poema escrito em língua portuguesa:
‘A tabacaria’ de Álvaro
de Campos
Inclui-o nesta carta, simplesmente, porque ele encerra a vida toda, na sua forma mais fugaz, como uma breve, bem breve e curta passagem. No entanto, e, em simultâneo, evoca o sonho que teima sempre em permanecer, em todos ou quase todos os nossos pequenos e grandes momentos. Porque, a vida, a nossa vida, tenha ela os anos que tiver, é sempre breve demais, dizem os sábios, os homens de coração puro e os bons poetas.
Não.
Não podias ir assim,
sem mais nem menos.
Sem uma palavra…
Sem uma só palavra que fosse.
Não podias,
até porque,
tu sempre te confundiste com as palavras.
Todas as palavras.
Sempre foste diferente da Leta e do Pai nesse aspeto.
As palavras foram contigo e para ti uma espécie de
companhia permanente.
Não podias ir pelo silêncio,
de um corpo que se devolve à terra,
sem um murmúrio sequer…
Ao contrário de outros, o silêncio nunca
te bastou para te sentires feliz, segura e, como se diz agora,
politicamente incorreta.
…/…
Quando lias o República e a Seara Nova e não se podia ter opinião sobre o que fosse,
…estiveste lá, sempre, no meio das palavras, da opinião, da
República e da liberdade.
A tua opinião, …
fosse ela qual fosse,
foi sempre pública e nunca se
confundiu ou escondeu daquilo a que tantos chamaram: ‘a
situação’. Nunca tiveste medo de dizer que, simplesmente ‘aquilo’ não te servia
e estavas frontalmente contra essa espécie de regime podre e hipócrita.
Tiveste, com isso, alguns pequenos dissabores e nada
mais, para aquilo que era habitual nesses tempos e nessas
circunstâncias. Tiveste sorte. Mas assumiste sem medo, a tua opinião,
mesmo naquele tempo em que ninguém a podia ou devia ter.
Nunca a escondeste, nunca a enfeitaste, nunca a transformaste nem travestiste em coisa nenhuma, como tantas e tantas ilustríssimas personagens, que com a graça de Deus, por ai vão vivendo sem qualquer curriculum cívico e político, como se não existisse memória coletiva. Como se o passado fosse aquilo que por vezes parece ser: apenas cinzas, pó e nada!
Foste pela liberdade e pela
democracia. Foi esse o caminho que trilhaste com o teu pai e com
o teu irmão. Mas nunca passaste da irmã mais nova, a miúda, que
entendia tudo o que se estava a passar, mas não passava de uma
garota e pouco mais que isso.
Ainda mais naquele tempo.
Muito antes do 25 de
Abril.
Muito antes mesmo.
E mais tarde, logo após a Revolução de 74...,
Nunca fizeste muita cerimónia com a discórdia, com a contradição e com o confronto. Fosse com quem fosse. Às vezes, penso até, que adoravas isso, a contradição, a troca de opiniões e de pontos de vista.
Foste a primeira mulher em Portugal a assumir a presidência de uma Junta de Freguesia.
Tu,
nunca foste uma pessoa
fácil,
acomodada
e muito menos vulgar,
que ‘acordou’ apenas, com a revolução de Abril e por ai foi andando com
palavras convenientes de circunstância breve e interesse imediato.
Com um horizonte ascendente e calculista, só próprio dos lambe-botas desta
vida. E houve e há tantos neste país.
Sempre te estiveste a borrifar para tudo isso…
Para eles todos,
que consideravas,
consideraste sempre,
serem
posturas e figuras menores,
porque cínicas, algumas, medianas apenas, e muito
pouco mais que isso,
dizias tu, umas vezes revoltada, outras completamente
indiferente,
porque já nada te
surpreendia,
nem mesmo
a ingratidão,
a soberba
ou a falta de memória.
...
Foste, para mim, a luz do último
farol dos meus caminhos. Fossem eles quais fossem,
eras o derradeiro crivo,
a última critica,
que sempre tive por perto, para atestar os meus muitos erros
e fracassos, as minhas posturas, opiniões e contradições
diversas.
Eras assim, foste sempre assim, uma espécie de ‘aferidor’ da minha vida e de
mim próprio.
Conhecias-me como ninguém.
Conheceste-me, como,
rigorosamente, mais ninguém!
...
Alguns sucessos houve,
em que nunca quiseste,
como outros quiseram,
deixar de me abraçar com uma alegria e felicidade imensas e transbordantes.
Até porque, nestas coisas de sucessos, é sempre melhor que nos digam nem que
seja uma palavra,
por vezes nem importa qual,
desde que diga ou pretenda dizer, o que correu bem ou,
simplesmente, o que não podia ter corrido melhor.
São tão bons, esses momentos… e
essas partilhas, ainda mais comigo, que nunca fui nem serei um homem
exemplar.
Foste sempre assim com as minhas pequenas vitórias.
Exageradamente assim!
Quanto aos meus insucessos,
que também os houve,
e muitos,
sempre preferiste murmurar o que correu mal e chorar comigo essas grandes e
pequenas amarguras da vida.
Foste sempre e também por isso, uma
pessoa incondicionalmente minha, ou seja, uma mulher com quem pude
contar sempre, fosse em que circunstância fosse. Das mais
humilhantes, às mais justas ou injustas situações em que me vi envolvido.
Estiveste sempre comigo, como disse atrás, incondicionalmente e até ao
fim.
Infeliz daquele que não pode
dizer o mesmo de alguém.
...
Foste uma mulher fabulosa.
Linda de morrer.
Inteligente,
altiva,
corajosa e sensível.
Foste sempre uma maravilhosa combinação entre beleza, frontalidade, altivez, inteligência e elegância.
Sensível e solidária com os
outros.
Detestaste sempre a dissimulação absoluta e medíocre, a
mentira e o cinismo.
Com o decurso dos anos, curiosamente, nunca te senti com medo.
Nem da vida, … e muito menos da morte.
Enfrentaste as duas de frente, cara à cara.
Sem medo nenhum, contrariamente a alguns devotos
que, dizias tu, não passavam de uns cobardes, na sua
fé hipócrita, por terem medo de morrer, entre outras enormes
contradições só próprias da vida e de quem a vive.
Contrariamente aos teus irmãos, ateus
confessos, tu viveste ou procuraste viver sempre perto dos mistérios
da vida e da morte. Sem nunca procurares certezas absolutas acerca de
nada. Sentias-te bem como eras.
Nunca professaste nenhuma confissão
religiosa, nenhum rito, nenhuma religião.
Tinhas uma imagem de Cristo
crucificado, à cabeceira, originária da igreja cristã ortodoxa. Um
presente que te trouxeram da Grécia ou da Turquia há muitos anos e
do qual nunca te desfizeste. Teve honras de ficar sempre à tua cabeceira.
Achei sempre esse episódio curioso e nunca o mencionei contigo, por
achar fazer parte da tua intimidade mais profunda.
Sempre te ouvi dizer, quando por
qualquer acaso estávamos os dois defronte dessa imagem: “Aqui está um
homem que nunca fez mal a ninguém e foi morto exatamente por isso. Porque a
verdade, Rui, quase nunca é inofensiva e
segura”, dizias tu. “Mas, faz por ser sempre verdadeiro, em
qualquer circunstância por que passes, porque só assim serás digno aos
olhos de Deus, seja lá ele quem for”.
Foste uma das poucas que nunca foi a missas nem bateu com a mão no peito. É curioso recordar tudo isso agora, logo agora, que podes, estou certo, fazer todas as perguntas e obter todas as respostas. Algumas talvez, nem te surpreendam assim tanto.
Quantas vezes me disseste quando saia de casa para qualquer lado menos habitual ou mais longínquo:
“Que o Sol te acompanhe e guie”.
Viveste o que viveste.
Fizeste o que fizeste…
Podias ter feito mais?
Claro que podias…
Mas, simplesmente, não quiseste ir por aí.
No entanto, apontaste-me horizontes,
e,
muitas vezes,
muitas vezes mesmo,
foste a força que me faltou, em tantos momentos,
muitos momentos …
e tão difíceis têm sido, tia.
Tão difíceis.
Tiveste sempre,
quase sempre,
os olhos,
esses maravilhosos olhos verdes,
postos no futuro.
Conheceste a felicidade absoluta, …
muito, …
muito, brevemente.
Um ano? Dois anos?
Provavelmente, nem te deste conta disso.
No entanto, …
e já depois,
muito pouco tempo depois,
houve tanta gente que marcaste.
Pelo amor, pela preocupação e pela ternura.
Começo por mim,
pelo nosso Manel, pelo António e pelo João…, pela
Lígia, evidentemente, e obviamente, pela Ana
Cristina.
Sei lá por quem
mais?
Sei lá?
Tantos e tantos que nunca te foram ver
já muito doente nem perguntaram por ti. Tantos e tantos que hoje não estão aqui
para se despedirem ...
É a vida tia. Não leves a mal,
porque é e foi sempre assim. A vida e a morte, andam sempre de mãos dadas,
até nestes pequenos e insignificantes pormenores.
Neste caso será a
ingratidão, a hipocrisia e claro a falta de memória e de tempo. É assim
com toda a gente. Vivemos todos depressa demais.
Vais embora.
Resolveste ser a última a partir.
… Para vocês todos, deve ter sido tão
fácil…
Para a Leta, para o Pai, para a Mãe
e para a minha querida Psia.
Só que,
para quem fica,
e para mim, que por cá vou ficando …,
… tem sido um
vazio tão grande, mas tão grande, que me vou
descobrindo mais frágil, mais só e mais triste.
Ainda mais triste,
ainda mais frágil e
muito, mas muito mais só.
Vai em Paz, …
porque não ficaste a
dever, rigorosamente, nada à Vida.
Provavelmente, terá sido a tua vida,
ela própria, que te terá ficado a dever tanta coisa a
ti.
Provavelmente.
Descansa em Paz tia,
Até breve.
Assim o espero.



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