O Autocarro para Leiria.

 


Há muitos, muitos anos, a Vieira só tinha ensino público até ao nono ano, sendo as instalações da nossa escola todas as salas pré-fabricadas em volta do adro da Igreja matriz bem como em 4 ou 5 locais arrendados para o efeito no centro da vila. O nosso recreio sempre funcionou no Largo da República ou no Jardim adjacente.

Havia um ‘baile de finalistas’ para o pessoal do nono ano.

Depois, a esmagadora maioria de alunos iam conhecer outros horizontes. Outras paragens. Uma cidade de província e, naturalmente, novos amigos. Alguns ficaram para a vida. A adolescência tem essa característica. Fazer amigos para a vida. Ainda me restam alguns, evidentemente.

Naquela época, seríamos uns 40 alunos da Vieira, repartidos quase metade/metade para letras (Liceu Rodrigues Lobo) e ciências (Escola Secundária Domingos Sequeira).

Todas as aulas começavam  na mesma hora (08.30 h), tanto no Liceu como na Escola, o que implicava que para nós “os da Vieira” nos tínhamos de levantar às seis e meia e entravamos no autocarro ainda de noite. No inverno, tínhamos frio e refugiávamo-nos no café do Jardim Camões.

Esses três quartos de hora de espera “obrigaram-nos, quase todos a começar a beber café e a fumar.

Depois o pessoal despedia-se e ia cada grupo para seu lado!

Desenganem-se todos os que estão a pensar que nós, os pexinos, como sempre fomos conhecidos pela malta de Leiria, éramos uns ‘pândegos’ e uns cábulas. Antes pelo contrário. O pessoal da Vieira dava cartas em ambas as escolas!

Extravasávamos era tudo dentro dos diversos autocarros da Rodoviária Nacional.

Para lá e naturalmente para cá.

Talvez fossem os melhores momentos do dia.

Havia um autocarro nº 4987, que tinha como cobrador um homenzito execrável que se chamava Leonel (imediatamente apelidado de Leonel Ticket). Uma espécie de bufo e extremamente desagradável para com os estudantes.

Houve um mês que nos pediu o passe diariamente. Ao terceiro dia, todos nós colamos o passe na testa para não ter de o ouvir a pedir aquilo que sabia antecipadamente que possuíamos.

Esse autocarro ao fim do dia, partia de Leiria e ouvia-se a mesma voz de sempre: “Com destino a Praia da Vieira, Vieira, Carvide, Monte Real, Ortigosa, Ponte da Pedra e Gândara dos Olivais, encontra-se na gare dois e é o autocarro quatro mil novecentos e oitenta e sete”.

Havia dias difíceis quando tínhamos 8 horas de aulas (4 de manhã e 4 de tarde), almoçávamos na cantina, levávamos lanche (uma sandes para o intervalo da manhã e outra para o intervalo da tarde). Nesses dias, quando chegávamos à gare estávamos todos ‘escangalhados’. A única coisa que nos apetecia mesmo era gozar o pagode até mais não.

Coitada da tripulação do 4987.

O senhor Cova como motorista e o Ticket como (pica miolos).

Quando havia ‘turbulência’ acima do normal, o pica, dizia ao motorista para parar em  Monte Real, fechava o autocarro, só ele é que saía e entrava na esquadra da PSP. Depois vinha um guarda com ele e era só esperar aquele dedo nojento a apontar para nós. Uma vez foi para mim. E, lá fui como os outros à esquadra, de onde partia a queixa para o director da escola, onde éramos posteriormente chamados ao director que nos ameaçava que se se repetisse a graça, ficávamos sem passe apoiado pelo SASE.

Era um fdp aquele Leonel.

Nessa noite, quando cheguei a casa para jantar, já estava toda a gente à mesa. Eu tinha-me atrasado uns 15 minutos da hora normal. Tinha vindo à boleia. Quando entro, só ouço o meu pai com ar divertido a perguntar: “então a esquadra de Monte Real estava quentinha?” 15 minutos de atraso e já lhe tinham ido contar!

Isto sempre foi uma terra de bufos. Essa é que é a verdade!

No dia seguinte, resolvemos todos sentarmo-nos nos lugares da frente. E fizemos todos como os ‘penduras’ dos rallys. E desde o arranque até à Vieira foi sempre assim: como sabíamos o percurso de cor e salteado, … o autocarro arranca e nós: “Ó Cova vira a direita” ele coitado não tinha outro remédio (era esse o seu percurso). A seguir alguém tocava a campainha para parar na próxima paragem e nós: “Ó Cova na próxima, para”. Ele parava e nós “Obrigado”. “Ó Cova vira a esquerda”, ele virava e nós: “obrigado”. Isto durante quase uma hora de viagem.

Nesses tempos havia um fiscal. Um ser tenebroso, cujo único poder era mandar nos putos.

Num carnaval qualquer, estava a chover, muita humidade. Fechamos as janelas todas do autocarro e partimos umas 5 ‘garrafinhas de mau cheiro’. Toda a gente começa a queixar-se e lá vem o fiscal ralhar com a rapaziada. E nós tivemos três protagonistas na resposta a dar a autoridade: “Isto é do motor. Sabe os motores a gasóleo por vezes têm esta particularidade. Queimam o óleo e produzem um cheiro nauseabundo”. Logo o outro, “isto é das águas das termas de Monte Real. São águas chocas sabe. Só pode ser daí” e o último: “isto foi aquela senhora que está sentada no meio do autocarro. Vá mas é falar com ela. Até aqui se ouviu.”

Podia estar agora aqui a contar tantas e tantas histórias, mas fico-me pela melhor:

Depois de almoço, partia um autocarro da Vieira para Leiria. Os alunos que nesse dia só tinham aulas de tarde lá seguiam.

Esse autocarro era dos mais velhos. Daqueles que tinham escadas desdobráveis, quando as mercadorias eram transportadas no teto.

Na Ponte da Pedra, houve uma senhora que tinha um enorme cabaz lá em cima e um pequeno cesto.

O ‘pica’ foi lá acima buscar o cabaz depois foi novamente para trazer o cesto. Nós que viajamos sempre nos bancos de trás, combinamos e um de nós só diz assim, estava o pica no meio da escada: “Bóra”. E o autocarro seguiu, tendo ficado o pica a dar murros no vidro de trás e aos gritos e nós caladinhos como ratos, até chegar à Gândara.

Tempos felizes! E divertidos muito acima do qb.




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