Declaração de interesses.

 




Li uma vez, nem sei bem onde, esta frase curiosa: “quem escreve … é para ser lido”.

Sempre, desde o tempo das primeiras ‘redacções’ na segunda classe até hoje, escrever para mim sempre foi uma espécie de fuga. De prazer imenso, intenso e íntimo. Profundamente íntimo. Quase tudo, mas nunca tudo, que vou escrevinhando, por aqui ou por ali, nem sempre consinto seja lido por outros. Penso, nesta fase da minha vida, saber, finalmente, distinguir o que deve ser público do que deverá permanecer para sempre privado. Mas, como disse, adoro escrever. Se escrevo bem ou mal, nada disso me inquieta minimamente. O que outros vão lendo ou fingindo que vão lendo, nada me importa. Rigorosamente nada! Até vou descobrindo, com bastante divertimento, quem lê tudo o que escrevo com anormal curiosidade. Mas, sempre pela calada. Na sombra. Só que deixam rasto. O Facebook tem destas coisas. Nem gostam, nem desgostam e muito menos aparecem. Mas lá vão deixando rasto! Sem saberem, mas vão deixando a sua impressão digital em tudo o que vou publicando. Tudo isso me diverte, ainda mais, quando muita dessa gente optou por se mostrar indiferente a tudo o que sou, escrevo e faço.

Quando decidi criar um blog, fi-lo apenas por um dos meus filhos me ter dito que o Facebook era um lugar para velhos. Isto foi-me transmitido numa altura em que uma velhota um ano mais nova que eu me atirou esta frase magnífica: “se queres escrever textos longos, que ninguém lê, cria um blog”. Lá tive de pedir ao António para me criar um blog. Escolhi o título, a foto de apresentação, mais a de perfil e, olha, lá fui escrevendo e colando alguns textos antigos da minha página do Facebook.

Um blog, fiquei a saber depois, tem uma característica viciante de tão curiosa, contabiliza todas as entradas de leitores. E vai arrumando todas elas por texto e proveniência por país. Quando dou por mim, tinha milhares de leitores em mais de 20 países de 4 continentes!

Como nunca fui um tipo modesto, porque exacerbo sempre os meus estados de alma, fiquei muito reconhecido por ter atingido, diariamente, tantos leitores. E lá fui escrevendo sempre sobre tudo o que me apetecia. Sem qualquer pudor ou reserva mental. Segui apenas alguns pilares básicos, que, de resto, sempre foram os meus:

- Factos e opiniões (nas mais diferentes formas de as expressar). Irónicas, sarcásticas, corrosivas algumas, humilhantes outras, mas, tal como os factos que vou descrevendo, sempre verdadeiras e dificilmente rebatíveis por quem queira!

Na minha vida, sempre fui igual a mim próprio. Muitos erros cometi eu caramba! Alguns deles, até me fui dando ao luxo (por ingenuidade, entre outras coisas) de repetir. Aprendi muito pouco com a minha vida até ter deixado, simplesmente, de ser possível ignorar que estava completamente sozinho, coberto de vergonha, humilhações várias e tendo ficado sem qualquer préstimo para nada nem para ninguém. Logo eu, que tinha tido tudo. Como um grande Amigo meu me disse há bem pouco tempo: “tiveste tudo e tudo estragaste”.

Nesta altura, toda a minha vida sofreu enormes alterações em todos os aspectos. Agora, … sou ou estou (nem sei) um tipo muito feliz, realizado, pacificado, sem qualquer pretensão que fuja a estes limites bem simples. Atingi um patamar em que, retirando as pessoas que amo profundamente, não me sinto obrigado a apresentar qualquer justificação de qualquer opção que decida tomar.

Muito poucos chegam aqui.

Quando tudo parecia ter acabado para mim, quando me deixaram completamente só, quando perdi todos os meus, quando tudo ou quase tudo tinha desabado. E tudo ao mesmo tempo. Quando fiquei sem chão. Quando caí, sem qualquer hipótese de pensar que alguma vez me levantaria, a vida, essa gaja estranha, começa devagar, bem devagar, a aparecer novamente e oferece-me as maiores felicidades do mundo. Uma a uma. Até chegar onde hoje me encontro. A um lugar onde seria escandaloso que lhe pedisse mais. Nunca me senti tão preenchido, tão grato, tão feliz. Digo isto não como exibicionismo barato de uma felicidade sem qualquer solidez. Digo todas estas coisas, simplesmente porque são absolutamente verdadeiras.

Não desejo, para além do que já tenho e dos que fazem parte de mim, rigorosamente mais nada nem ninguém.

Nada devo. A ninguém devo. Nada quero, como nunca nada quis. O que fiz, fiz. O que sou, sou. Contudo, existe um pequenino defeito do qual nunca abdicarei: pensar, dizer ou escrever tudo o que sinto. Quer seja acerca de uma circunstância, de uma pessoa, de faltas de caracter de certa gente, e, sim claro, de histórias ouvidas ou vivenciadas (como uma vez, alguém me tentou caracterizar pretendendo ridicularizar-me).

Sempre fui como sou. Um gajo politicamente incorrecto. Sempre me prejudiquei com essa minha maneira de ser e de estar. E, até hoje, nunca me arrependi de ter o coração ao pé da boca!

É por tudo isto, que irei continuar a escrever, tudo o que penso. Nesta altura, simplesmente, não tenho nada a perder. Mas, mesmo que tivesse, continuaria a ser o que sempre fui: um livre pensador que não receia coisa alguma. Até porque a vida, a nossa vida, é para ser vivida intensa, livre e sem qualquer constrangimento ou medo que a tente atormentar.  


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